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A psicanálise é a arte do insulto


Há uma provocação que atravessa o campo psicanalítico desde seus primórdios: a de que a psicanálise, antes de curar, fere. De que sua tarefa primeira não é consolar, mas desmascarar. Ela toca onde o eu se mascara de integridade. Ela raspa, com o bisturi da interpretação, as crostas de sentido que o sujeito construiu para sobreviver. Não por sadismo. Mas por estrutura. Por ética. Por compromisso com a verdade do desejo, mesmo quando essa verdade é insuportável.

Freud já sabia que o inconsciente não é um lugar de delicadezas. Ele comparava o analista, não raro, a um cirurgião que precisa cortar para que a carne possa cicatrizar. Mais tarde, Lacan radicalizaria: dizer a verdade ao sujeito é, antes de tudo, atravessar suas defesas narcísicas, romper o escudo imaginário onde o eu se protege. É fazê-lo cair do pedestal da ilusão de unidade, de coerência, de autonomia.

Quando se diz que a psicanálise é a arte do insulto, não se trata de uma agressão vulgar, de um ataque gratuito, de um sadismo clínico. Trata-se de um insulto estrutural. A análise ofende porque revela. Porque arranca o sujeito do lugar confortável onde ele se fixou para não enlouquecer. Porque desmonta as narrativas com as quais ele pacificou, por décadas, o seu próprio sofrimento. O insulto aqui é estrutural, como dizemos de um trauma: ele é constitutivo da travessia.

A palavra "insulto" vem do latim insultare: saltar sobre, investir contra. É isso que a interpretação faz. Ela salta sobre o sintoma, fere a superfície da fala, investe contra o pacto de silêncio que o sujeito estabeleceu com seu próprio gozo. O analista, quando opera bem, ofende o discurso estabelecido. Ele desautoriza os sentidos já prontos. Não cede à demanda de acolhimento narcísico, quando este se apresenta como um pedido para manter o recalque intacto.

É claro que há um risco. A clínica pobre, mal sustentada, transforma esse "insulto estrutural" num mero ataque pessoal. Uma caricatura perversa do gesto analítico. Mas quando o analista sustenta sua escuta com ética e com desejo de análise, o insulto se transmuta em possibilidade de transformação. Ele rompe para abrir. Derruba para reconstruir. Fere para que o sujeito possa, enfim, se responsabilizar pelo que repete.

André Green nos lembra que o analista é aquele que suporta o ódio do paciente. Que aceita ser o endereço temporário de suas projeções mais violentas. Mas também é aquele que, quando necessário, devolve ao sujeito aquilo que ele tenta eternamente endereçar ao outro. A psicanálise, nesse sentido, é um ofício ingrato: ela precisa dizer ao paciente o que ele não quer ouvir, o que ele passou a vida toda evitando escutar.

Não há cura sem perda. Não há análise sem o luto do narcisismo. Sem o colapso das defesas que estruturam o sofrimento. Por isso, cada interpretação bem feita é, de algum modo, um insulto: ela desmantela o equilíbrio precário que o sujeito construiu para suportar sua história.

A análise ofende, mas não por desprezo. Ofende porque aposta que, depois da queda, o sujeito pode se levantar de outro modo. Menos iludido, menos alienado, mais próximo de si mesmo. Esse é o paradoxo: a ofensa analítica é, na verdade, um ato de cuidado. Um cuidado sem sedução, sem proteção enganosa, sem anestesia.

A psicanálise é, assim, a arte do insulto... mas também a arte de sustentar as consequências desse insulto até que o sujeito possa, ele mesmo, rir daquilo que um dia tanto doeu.



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©2023 by Mário Bertini Psicólogo e Psicanalista

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