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Quando o self se desliga: rede default-mode, vazio psíquico e auto-representação


Há estados clínicos em que o paciente chega ao consultório não apenas sem palavras, mas sem presença. Não é um silêncio carregado de sentido, como o luto ou a vergonha, mas um vazio estrutural, uma ausência de si. O analista sente que fala para um espaço oco, uma espécie de quarto com eco, onde as palavras não encontram parede para se apoiar. É nesse terreno que o conceito de vazio psíquico de André Green, o trabalho de auto-representação de Roussillon e as descobertas neurocientíficas sobre a rede default-mode se cruzam.


A rede default-mode (DMN), descrita nas neurociências afetivas como o circuito cerebral que sustenta os estados de autorreferência, imaginação e memória autobiográfica, é o palco neurológico onde o self se narra a si mesmo. Ela se ativa justamente quando o sujeito está em repouso, pensando sobre si, ruminando experiências passadas, imaginando o futuro. A suspensão dessa rede, observada em estados depressivos graves ou em transtornos dissociativos, é a marca neurobiológica de um self que perdeu sua capacidade de se representar.


André Green, ao escrever sobre o vazio psíquico, nos lembra que há pacientes cuja patologia fundamental não é a presença de conteúdos recalcados, mas a ausência de conteúdos representacionais. O paciente vazio não reprime: ele nunca representou. Seu mundo interno é como uma tela em branco, não por escolha, mas por falha constitutiva. Não há um "quem" interno que narre a experiência. Não há autor para a história.


René Roussillon, por sua vez, ao discutir os processos de auto-representação, descreve como o self se constrói por meio da sedimentação de experiências vividas e simbolizadas em campo intersubjetivo. Cada encontro significativo deixa um traço psíquico que permite ao sujeito narrar-se a si mesmo. Quando o ambiente falha de forma sistemática, o processo de auto-representação fica comprometido. O resultado clínico é um sujeito com falhas na continuidade existencial.


O encontro desses três campos – neurociência, teoria psicanalítica e clínica da ausência – aponta para uma mesma direção: a constituição do self é um processo que depende de condições mínimas de reconhecimento e de metabolização emocional. A DMN só se ativa quando há um mínimo de segurança afetiva. O vazio psíquico, por sua vez, é a expressão subjetiva daquilo que, no cérebro, pode se manifestar como uma DMN hipoativa.


Clinicamente, o analista se vê diante do desafio de trabalhar com um paciente que não só não sabe o que sente, mas que sequer sente que existe. A contratransferência tende a ser marcada por sensações de tédio, de ausência, de uma espécie de anestesia emocional. É fácil, nesse cenário, cair na armadilha de forçar o paciente a produzir sentido antes da hora. Mas o trabalho inicial é menos de interpretação e mais de sustentação. É preciso criar um campo suficientemente vivo para que o self possa começar a se sentir existente.


Ogden, ao falar da experiência emocional compartilhada e do "sonhar o sonho não sonhado", oferece uma ponte importante aqui. A função do analista é oferecer ao paciente um espaço onde a experiência psíquica possa começar a acontecer. Não se trata de interpretar o vazio, mas de habitá-lo junto, de torná-lo menos assustador pela simples presença coabitada.


Talvez a grande tarefa nesses casos seja ajudar o paciente a construir um "estado de repouso interno", um espaço mental onde ele possa começar a pensar sobre si mesmo. As pequenas experiências de reconhecimento na transferência funcionam como estímulos para a ativação de uma rede default-mode emocional. Cada interpretação empática, cada silêncio compartilhado, cada reconhecimento afetivo é um passo na reanimação desse circuito.


O trabalho clínico, então, é um processo de construção lenta de auto-referência. Pequenos momentos de simbolização são como os primeiros traços de uma pintura que começa a emergir numa tela até então vazia. Não se deve esperar narrativas ricas, mas fragmentos, imagens soltas, sensações corporais mal definidas que precisam ser acolhidas como o início de uma possível história.


Se existe um fio condutor entre a neurociência da DMN, a teoria do vazio de Green e os processos de auto-representação de Roussillon, é a compreensão de que a existência psíquica não é um dado, mas uma conquista. Uma conquista que se faz sempre a dois: entre paciente e analista, entre cérebro e ambiente, entre ausência e desejo de presença.


No final, o analista que trabalha com o vazio não é apenas um intérprete de símbolos, mas um restaurador de paisagens internas, alguém que, com paciência e presença viva, ajuda o paciente a reconstruir um espaço mental capaz de ser habitado.


Criado com auxílio de IA


 
 
 

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©2023 by Mário Bertini Psicólogo e Psicanalista

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