O Valor como Axioma: Autoestima, Percepção e a Necessidade de um Chão Incondicional
- Mário Bertini
- há 2 dias
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Existe uma objeção recorrente à ideia de autoestima incondicional: se autoestima é fundamentalmente uma questão de autopercepção, como poderia ser tratada como algo independente do que a pessoa sente sobre si mesma? A objeção tem aparência de rigor. Mas ela confunde duas coisas distintas — reconhecer o caráter perceptual da autoestima e aceitar que a percepção deva ter o voto final sobre algo tão fundamental quanto o valor de uma pessoa. Essa distinção, aparentemente sutil, tem implicações clínicas e filosóficas de grande alcance.
O problema central é que a percepção de si mesmo não é um instrumento neutro. Em estados de sofrimento intenso — depressão, luto, trauma, colapso identitário — a capacidade de avaliar o próprio valor está precisamente entre as funções comprometidas. Não se trata de distorção cognitiva corrigível por um esforço de vontade, mas de algo estrutural: a ferida que distorce a autopercepção é a mesma ferida que precisaria de uma autopercepção funcional para ser reparada. Pedir a alguém nesse estado que ancore seu valor no que sente sobre si mesmo equivale a devolver um espelho quebrado e sugerir que a imagem distorcida é o problema a resolver. O círculo só pode ser interrompido por algo externo à percepção danificada.
Do ponto de vista psicanalítico, isso ressoa diretamente com a tradição kohutiana. Para Kohut, o self se constitui através de um espelhamento suficientemente bom — o olhar do outro que reflete ao sujeito sua própria coerência e vitalidade. Quando esse processo falha precocemente, o que resta não é apenas baixa autoestima, mas uma estrutura que literalmente não consegue se ver com acuidade. O problema não é cognitivo nem volitivo: é estrutural, e demanda uma intervenção que não dependa dos próprios recursos que estão comprometidos.
Winnicott chegaria a um ponto semelhante por outro caminho. O holding — essa função de sustentar o sujeito antes que ele possa sustentar a si mesmo — opera como uma âncora externa ao estado interno. O bebê não precisa sentir que é sustentado para que o holding seja real e eficaz; o holding precede e possibilita a percepção. Em momentos de colapso adulto, algo análogo se repete: o sujeito precisa de algo que sustente sua existência de fora, enquanto os recursos internos de autorregulação estão temporariamente fora de alcance. Um valor tratado como dado, e não como conquista dependente de como a pessoa se sente, pode cumprir essa função.
A lógica não é estranha ao pensamento jurídico e político. A dignidade humana, nos marcos kantianos e nas declarações de direitos modernas, é tratada como inalienável não porque seja uma verdade metafísica empiricamente verificável, mas porque é uma declaração performativa — um ato de instituição que cria as condições para que certos tratamentos se tornem impossíveis. Não afirmamos que a dignidade existe porque conseguimos observá-la; afirmamos que ela existe precisamente para que não possa ser revogada por circunstância, dor ou poder. O mesmo raciocínio pode ser transposto para o plano clínico e existencial: tratar o valor pessoal como axiomático não é uma ficção consolatória, mas uma postura estrategicamente necessária — especialmente onde os processos internos de verificação estão contaminados pela própria patologia que se pretende tratar.
Há uma tensão que essa posição não dissolve completamente, e seria desonesto ignorá-la. Tratar qualquer coisa como axiomática implica suspender temporariamente a interrogação — e a psicanálise, de Freud a Bion, tem boas razões para desconfiar de convicções que não se deixam examinar. Formas de autoestima incondicional podem funcionar como defesas maníacas, como recusa de contato com a realidade, como bolha narcísica impermeável ao outro. A diferença entre o axioma como chão provisório para o trabalho e o axioma como resistência ao trabalho é clínica, não teórica: depende do uso que o sujeito faz dele no contexto de uma relação.
O que está em jogo, portanto, não é a crença inabalável no próprio valor, mas a recusa de delegar à percepção oscilante a autoridade última sobre esse valor. É uma posição epistemicamente humilde — reconhece que a percepção pode errar, especialmente quando o sofrimento é intenso — e ao mesmo tempo clinicamente robusta: oferece um ponto de ancoragem que não colapsa junto com o sujeito no momento em que ele mais precisa de sustentação.
No fundo, trata-se de uma questão sobre a temporalidade da cura. A percepção saudável de si mesmo não é o ponto de partida do processo terapêutico — é, frequentemente, seu produto tardio. Exigir que o sujeito sinta seu valor antes de poder apoiar-se nele é inverter a ordem causal: confundir o destino com o meio de transporte. O axioma do valor não dispensa o trabalho; ele torna o trabalho possível, ao oferecer um solo que não precisa ser conquistado antes de poder ser pisado.
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