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A Dança, o Tropeço e o Jazz: O Enactment como Motor da Transformação Psicanalítica


Durante muito tempo, o imaginário em torno da clínica psicanalítica foi dominado pela figura do analista asséptico, uma "tela em branco" impassível às tempestades emocionais de seus pacientes. Sob essa ótica clássica, a técnica consistia na decodificação precisa do Inconsciente, e qualquer envolvimento emocional excessivo do analista — a chamada contratransferência atuada — era visto como um erro técnico grosseiro, uma falha na partitura da análise. Contudo, a evolução do pensamento relacional na psicanálise, tão bem articulada pelas reflexões de Ariel Liberman, nos convida a desconstruir esse mito e abraçar a imperfeição como o verdadeiro terreno da cura.

No centro dessa mudança de paradigma está o conceito de *enactment* (encenação conjunta ou atuação). Longe de ser um acidente de percurso evitável, o *enactment* é compreendido hoje como uma inevitabilidade clínica. O encontro psicanalítico não é a observação distanciada de um sujeito por outro, mas o choque de dois inconscientes. Em determinado momento, o analista é "coercitivamente recrutado" para dentro de uma coreografia cocriada, perdendo temporariamente sua plasticidade reflexiva para encarnar um objeto interno do paciente. Ele tropeça. Ele sente raiva, angústia, tédio ou culpa, muitas vezes reproduzindo exatamente o trauma que o paciente sofreu em outro tempo.

Se a análise fosse como a música clássica, esse tropeço seria a ruína da sessão. Mas, como nos lembra a genial metáfora do músico Bill Evans trazida por Liberman, a clínica contemporânea assemelha-se muito mais ao jazz. No jazz, um erro pode — e deve — ser justificado e rearmonizado pelo que vem a seguir. O valor não está na execução perfeita de uma técnica imaculada, mas na capacidade de improvisar sobre o que deu errado, transformando a dissonância em uma nova possibilidade melódica.

O caminho para essa transformação, contudo, exige um trabalho árduo e solitário por parte do analista. Para que o tropeço vire dança, é necessário o que se chama de "desidentificação". O analista precisa despertar do transe do *enactment*, utilizar sua "escuta de campo" para ler seus próprios afetos e desenganchar-se do papel que estava desempenhando. É uma exigência ética e emocional brutal: demanda o abandono do narcisismo terapêutico e o reconhecimento da própria vulnerabilidade e captura na teia do paciente.

Quando o analista sobrevive a essa tormenta sem retaliar ou abandonar o paciente, ocorre o verdadeiro milagre clínico: a neo-internalização. O paciente, que inconscientemente armou a cena esperando a velha resposta traumática (a rejeição, a punição, o desamor), depara-se com um objeto diferente, capaz de processar a agressividade ou a angústia sem ser destruído por ela. É essa experiência relacional viva, e não apenas o *insight* intelectual, que reestrutura a psique e promove a mudança.

Finalmente, a travessia do *enactment* permite a restauração do "espaço potencial", aquele território sagrado do brincar descrito por Donald Winnicott, que havia sido suspenso pela rigidez da atuação. É apenas neste espaço recuperado que a interpretação volta a ter sentido. Mas não mais como uma verdade inquestionável proferida do alto da poltrona. A interpretação retorna como um *objeu* — um "objeto-jogo" — oferecido ao paciente para que ele o manipule, amasse, descarte ou recrie de forma autoral.

Em suma, a perspectiva do *enactment* humaniza profundamente a psicanálise. Ela nos ensina que não curamos o outro permanecendo ilesos na margem, mas sim entrando no rio, deixando-nos arrastar pela correnteza por um instante, para então, juntos, encontrarmos o caminho de volta à superfície. A mudança psíquica, afinal, não nasce da ausência de erros, mas da coragem de vivenciá-los e significá-los no compasso imprevisível e humano do jazz.




Criado com auxílio de IA

 
 
 

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©2023 by Mário Bertini Psicólogo e Psicanalista

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