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A Catedral de Gelo e o Sangue Quente Ou: Do que a Lógica Lacaniana tentou nos salvar?


Dizem que Lacan foi o retorno a Freud. Talvez seja mais honesto dizer que Lacan foi a fuga de Freud. Uma fuga genial, barroca, erguida com a arquitetura dos nós e a frieza dos matemas, mas ainda assim uma fuga.

Pois onde Freud via o pântano fumegante da biologia, Lacan viu a estrutura cristalina da linguagem. Onde Freud colocava a mão na "pasta viscosa" da pulsão, Lacan colocava a luva cirúrgica do Significante.

Há um erro fundamental na leitura lacaniana que não é de ordem técnica, mas de ordem afetiva. Ao reler o conceito de Gozo como um excesso maldito, antagônico ao Desejo, Lacan cometeu um ato de higienização teórica. Ele tentou limpar o sangue do chão da clínica.

Mas o sangue — o masoquismo erógeno primário — era, para Freud, a própria tinta com a qual a vida se escreve.

1. A Oração da Carne (O Masoquismo Vital)

Freud, em sua honestidade brutal, percebeu algo que a filosofia sempre tentou esconder: a vida dói, e nós só sobrevivemos porque aprendemos a amar essa dor.

O masoquismo erógeno primário não é uma patologia; é a trincheira onde a vida se esconde para não ser aniquilada pelo princípio do Nirvana. É o momento em que a psique diz: "Eu aceito sofrer, contanto que eu continue sentindo."

Ao ligar a pulsão de morte com a libido, criando essa amálgama dolorosa e prazerosa, o sujeito funda o seu solo. É um solo sujo, imperfeito, feito de restos e cicatrizes. Mas é o único solo capaz de sustentar a árvore do Desejo.

O Desejo, essa "esperança de mudança", não nasce do vazio asséptico, da Falta pura lacaniana. O Desejo nasce da superabundância de uma vida que insiste em se manter coesa, mesmo sob ataque. Sem o lastro pesado do masoquismo, a pipa do desejo não voa; ela se perde no vácuo.

2. A Álgebra do Medo (A Defesa Narcísica)

Por que, então, Lacan demonizou essa substância vital, chamando-a de Gozo mortífero e opondo-a à Lei?

A hipótese é terrível e necessária: A teoria lacaniana é um vasto sistema de defesa contra a intimidade.

O que vemos em Lacan é uma intelectualização sublime, uma fortaleza construída por um narcisismo que não suporta a dependência. Reconhecer que somos feitos desse "barro" masoquista implica reconhecer nossa dependência absoluta do Outro que nos tocou, nos limpou e nos feriu.

Para evitar o horror desse contato real, da "carne com carne", Lacan ergueu a Muralha da Linguagem.

* Ele transformou o Outro-Mãe (calor, leite, pele) no Grande Outro (código, lei, bateria de significantes).

* Ele transformou o Encontro traumático em Estrutura lógica.

Isso é o que André Green chamaria de uma "alucinação negativa". Lacan olhou para a mãe e decidiu não vê-la. No lugar dela, viu a Lei do Pai. Apagou-se a pessoa, restou a função. Apagou-se o sujeito-analista, restou o "lugar do morto".

É a defesa perfeita: transformar o sofrimento humano em álgebra protege o analista de ser tocado pelo fogo do paciente. O matema não chora. O nó borromeano não sangra.

3. A Ilusão da Falta

Ao insistir que "a relação sexual não existe", Lacan diz uma verdade lógica para esconder uma verdade vital: a relação afetiva existe e ela é aterrorizante.

Lacan se refugia na "Falta" porque a falta é segura. O vazio não invade. O vazio mantém a distância.

Mas a clínica — a verdadeira clínica da sobrevivência — nos ensina o oposto. O paciente não chega ao consultório buscando um corte lógico que o devolva à solidão de sua falta. Ele chega carregando o peso insuportável de seu masoquismo, pedindo não que o retiremos, mas que o ajudemos a carregar.

"Suportar junto é criar a mudança."

Essa frase, que desafia a técnica do corte, recupera a dignidade do Outro-Sujeito.

Quando o analista suporta, ele não é um espelho vazio. Ele é uma testemunha viva. Ele empresta sua própria vitalidade para metabolizar a dor que, sozinha, seria tóxica.

A cura não vem da subtração do gozo pela espada do significante. A cura vem da transformação do gozo pela alquimia da presença.

Conclusão: O Retorno ao Corpo

Talvez devêssemos perdoar Lacan. Sua teoria é o monumento de um homem que olhou para o abismo do Real e, com medo de cair, construiu uma escada de palavras para o céu.

Mas nós, que ficamos aqui embaixo, na terra, sabemos a verdade freudiana: não somos anjos caídos da linguagem. Somos animais feridos que aprenderam a sonhar.

E o nosso desejo não é a busca por um objeto perdido que nunca existiu. O nosso desejo é a teimosia sagrada de continuar respirando, de continuar sentindo, na aposta louca de que, amanhã, haverá um outro capaz de suportar a nossa dor conosco.

A psicanálise não deve ser a ciência da Falta. Deve ser a arte da Presença.





Criado com auxílio de ia

 
 
 

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©2023 by Mário Bertini Psicólogo e Psicanalista

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