Quem (não) sou Eu
- Mário Bertini
- há 1 dia
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Abro com uma pequena imagem: um bebê que solta, por instantes, o próprio choro e percebe — pela primeira vez — que existe alguém do outro lado que o recolhe, que nomeia o choro, que devolve calor. Não é apenas um episódio sensorial. É o lugar onde a falta começa a ser conhecida, onde a ilusão de completude começa a ceder, e onde algo essencial — a possibilidade do luto — se insinua como condição de nascença para o eu que virá.
No vocabulário clássico, o termo que tenta rimar com essa cena é o de Sigmund Freud: o narcisismo primário, a hipótese de uma unidade original cujo descolamento do objeto exige trabalho de perda. Mas a perda aqui não é só privação — é gesto transformador. Perder, na etimologia do luto que nos interessa, é também tornar possível a distinção entre o que é dentro e o que é fora, entre o que pertence ao corpo e o que vem do outro. O luto do narcisismo primário não é um evento secundário ou posterior: ele é o movimento fundante que cria a superfície sobre a qual a identidade se constrói. Sem esse luto, a identidade fica presa numa tentativa constante de restaurar a plenitude perdida — uma identidade que defende, que inflama, que promete completude e, por isso mesmo, exclui.
Dizer que a psicanálise é “anti-identitária” é, então, ao mesmo tempo verdade e metade da verdade. Ela é anti da identidade enquanto fantasia de unidade inabalável; mas é pró-identidade enquanto processo que aceita a perda, elabora a falta e organiza a divisão interna. Aqui entra a noção, mais sutil, que venho trabalhando: identidade não como essência fixa, mas como operador organizador — um modelo gerativo de alto nível que disciplina priors*, modula a precisão dos afetos e sustenta continuidade temporal. O luto do narcisismo primário é o gesto que desativa a precisão absoluta do prior e abre a cena para a atualização possível de crenças sobre o eu. Em termos menos técnicos: dá-se a possibilidade de que o sujeito aprenda a si mesmo.
Roussillon aparece nessa conversa como um tradutor clínico desta passagem. René Roussillon fala da inscrição não simbolizada, daquele rastro sensório-afetivo que insiste em retornar quando falta a palavra. O trabalho do luto — no sentido roussilhoniano — consiste em permitir que essa inscrição torne-se passível de nome, que o corpo que guardou o acontecido encontre uma cadeia simbólica que a contenha. Dito de outro modo: o luto é a operação pela qual o excesso desse registro não verbal é metabolizado, deslocado do modo de repetição e recolocado no campo do símbolo. Assim, a identidade que emerge é sempre uma identidade escrita sobre perda: um arranjo parcial e negociado, aberto à revisão.
Há, portanto, um paradoxo constitutivo que merece ser repetido lentamente. A identidade autêntica exige um luto — aceitar que algo foi perdido e que não pode ser recuperado intacto — mas esse luto, para ser digerido, precisa de alguma forma de coesão que o suporte. Sem coesão, o luto dilui-se em fragmentação; com coesão excessiva, o luto é negado e reatualiza-se como defesa narcísica. A clínica analítica atua precisamente na linha de fogo entre esses extremos: ela induz o trabalho de perda e simultaneamente oferece o suporte relacional que permite à identidade emergir sem colapsar. O analista, neste registro, não é restaurador de totalidades; é facilitador de uma aceitação que inventa continuidade a partir da divisão.
Quando pensamos em regulação — psicológica e neurofisiológica — podemos traduzir esse movimento em imagens de redes que se acoplam e desacoplam. O luto recalibra a gana (a precisão) do prior sobre o self; diminui a rigidez de certos padrões reativos; promove uma plasticidade que permite novas narrativas de si. Assim, a identidade deixa de ser um posto de controle omnipotente e torna-se um campo de experimentação: há um narrador que observa suas falhas, há estados afetivos que se articulam com memória e linguagem, há a função reflexiva que nomeia e, por meio do nome, transforma. O que era clausura passa a ser abertura — não por dissolução da unidade, mas por sua reconfiguração.
Abaixo dessa transformação, sempre permanece a marca do que não foi dito, do que ficou como corpo. O luto do narcisismo primário não é uma passagem limpa: é som, ruído, corpo que treme, gesto involuntário. A prática clínica conhece bem estas sobras: repetições que retornam quando a palavra vacila; quebras de narrativa nos momentos em que a vergonha se apresenta; atos que falam quando o sujeito ainda não pode. Trabalhar com essas sobras é ajudar o paciente a tecer uma biografia que comporte a falta — a arte maior é hospedar o que fere sem cancelar a possibilidade de um si contínuo.
Há também, por fim, uma dimensão ética e política nessa articulação. Em tempos que promovem narrativas de completude — identidades rígidas como proteção simplificadora contra a angústia social — a tarefa do luto torna-se subversiva: desconstruir a promessa de totalidade é recusar a violência que ela impõe, recusar a tirania de um eu que não tolera a alteridade. A psicanálise, ao ensinar que a identidade só existe como trabalho, oferece uma resistência tênue à lógica performativa que exige coerência imediata, eficácia identitária, imagem sem fissura.
O movimento terapêutico que proponho, então, é simples em sua estrutura e complexo em sua prática: criar experiências corretivas que diminuam a precisão narcísica do prior; nomear o que até então fora corpo; acolher a vergonha que acompanha a perda; transformar o gesto repetido em enunciado possível. Não se trata de restaurar um passado iludido, mas de costurar com fios novos uma continuidade que respeite a divisão. Nesse espaço, a identidade se revela não como um fim, mas como uma arte de sustentar, na linguagem e no afeto, uma vida que contém sua própria falta.
*Nota técnica — O que é “prior” neste contexto
No vocabulário do predictive processing (processamento preditivo), um prior é uma hipótese antecipatória do sistema nervoso sobre o mundo ou sobre si mesmo, formada a partir de experiências passadas e usada para interpretar novas entradas sensoriais.
Um prior não é apenas uma ideia consciente.
Ele pode ser:
Um padrão afetivo implícito.
Um esquema relacional.
Uma expectativa corporal.
Uma crença narrativa sobre si.
Exemplos:
“As pessoas me abandonam.”
“Eu sou inadequado.”
“Se me aproximo, serei ferido.”
“Sou competente e posso errar.”
Essas não são apenas frases — são modelos organizadores da experiência.
Criado com auxílio de IA



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