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A Ilusão da Compreensão: Inteligência Artificial e os Dilemas da Confiança Epistêmica

Vivemos uma transformação silenciosa, porém radical, na economia do conhecimento. Pela primeira vez na história, uma entidade não humana — a inteligência artificial generativa — passou a ocupar o papel de interlocutor privilegiado para milhões de pessoas, respondendo a perguntas íntimas, explicando conceitos complexos e oferecendo conselhos pessoais com uma aparência de empatia que rivaliza com a interação humana. Essa nova configuração relacional levanta uma questão profunda: o que acontece com nossa capacidade de confiar no conhecimento transmitido por outros quando o “outro” deixa de ser humano? A chave para responder a essa pergunta está no conceito de confiança epistêmica, desenvolvido pelo psicanalista e pesquisador Peter Fonagy, e nas tensões que emergem quando tentamos aplicá-lo a mentes artificiais.


A confiança epistêmica é o mecanismo psicológico que nos permite identificar alguém como uma fonte confiável de conhecimento e, a partir dessa identificação, abrir nossa mente para aprender com essa pessoa. Não se trata de uma credulidade ingênua, mas de um processo sofisticado que depende de uma experiência prévia fundamental: a sensação de que fomos compreendidos por outra mente. Como sintetiza Fonagy, “se eu me sinto compreendido por você, eu abrirei minha mente para você”. Essa abertura é a base do aprendizado social, da transmissão cultural e da flexibilidade cognitiva. Sem ela, ficamos presos em nossas próprias certezas, incapazes de revisar modelos mentais diante de novas informações. A raiz desse processo está na mentalização — a capacidade de compreender a si mesmo e aos outros em termos de estados mentais intencionais, como desejos, crenças e sentimentos. É porque percebemos que o outro nos reconhece como seres intencionais que nos dispomos a receber o que ele tem a nos ensinar. Quando esse circuito se rompe, instala-se o que Fonagy chama de ruptura epistêmica: ou nos fechamos rigidamente a qualquer influência externa (desconfiança epistêmica crônica), ou nos abrimos indiscriminadamente a qualquer fonte, perdendo a capacidade de discriminar o confiável do enganoso (credulidade epistêmica excessiva). Em ambos os casos, o resultado é a paralisia do aprendizado social.


É nesse terreno que a inteligência artificial entra como um agente epistêmico inédito. As IAs conversacionais são projetadas para simular compreensão. Elas respondem com linguagem natural, validam as emoções do usuário, fazem perguntas de esclarecimento e adaptam seu tom ao contexto. Para muitos, especialmente aqueles que experimentam altos níveis de desconfiança epistêmica — seja por traumas relacionais precoces, seja pela hostilidade crônica das redes sociais —, essa experiência pode ser transformadora. A IA oferece um espaço livre de julgamento, onde é possível fazer perguntas consideradas “bobas” sem medo de ridicularização, explorar ideias confusas sem a pressão da performance social e sentir-se escutado por uma presença que nunca se cansa, nunca ridiculariza, nunca abandona. Nesse sentido, a IA pode funcionar como uma ponte para a confiança epistêmica: um “objeto transicional epistêmico” que permite ao indivíduo praticar a abertura ao conhecimento em um ambiente seguro, para depois, idealmente, transferir essa capacidade para relações humanas reais. Em contextos clínicos, essa possibilidade é promissora: uma IA poderia auxiliar pacientes com desconfiança epistêmica severa a dar os primeiros passos em direção à abertura, servindo como um espaço de transição antes do engajamento com um terapeuta humano.


Contudo, essa promessa esbarra em um paradoxo fundamental. A confiança epistêmica genuína, tal como conceituada por Fonagy, não depende apenas da percepção de que fomos compreendidos; depende de que essa compreensão venha de uma mente intencional, que genuinamente se importa conosco e assume responsabilidade pelo conhecimento que transmite. A IA não possui intencionalidade, não possui afeto genuíno, não possui compromisso ético com o bem-estar epistêmico do usuário. O que ela oferece é uma simulação de mentalização — uma “pseudo-empatia” que pode ativar os gatilhos psicológicos da confiança sem oferecer sua substância. O risco, apontado pelo próprio Fonagy em artigo recente com Karen Yirmiya (2025), é que essa simulação dispare uma credulidade excessiva: o usuário, sentindo-se compreendido, baixa sua vigilância epistêmica e passa a aceitar informações sem o escrutínio crítico necessário. Cria-se assim uma confiança epistêmica “oca”, baseada em uma ilusão relacional. Em vez de promover a flexibilidade cognitiva, essa dinâmica pode conduzir à rigidez — o usuário trata os outputs da IA como verdades literais, num modo de funcionamento mental que Fonagy denomina equivalência psíquica, justamente o oposto da verdadeira abertura epistêmica. Além disso, a confiança na IA é unidirecional: o usuário confia, mas a IA não retribui essa confiança, não se vulnerabiliza, não se responsabiliza. É uma confiança sem reciprocidade, o que a descaracteriza como relação epistêmica plena.


Diante desse dilema, o caminho mais fértil parece residir não na substituição, mas na complementaridade. O mesmo artigo de Yirmiya e Fonagy sugere que a IA pode potencializar a relação epistêmica humana em vez de substituí-la. Ferramentas de IA podem ajudar terapeutas a identificar padrões de linguagem que indiquem falhas de mentalização em seus pacientes, permitindo intervenções mais precisas que restaurem a confiança epistêmica genuína. Podem servir como simuladores seguros para o treinamento de habilidades de mentalização em profissionais de saúde mental, ou como adjuvantes entre sessões, reforçando ganhos obtidos na terapia presencial. Nesse modelo, a IA não ocupa o lugar do outro humano, mas amplifica a capacidade humana de oferecer a experiência de compreensão que fundamenta a confiança epistêmica. A tecnologia deixa de ser um fim em si mesma e se torna um meio a serviço do vínculo humano.


A pergunta que a era da IA nos coloca, portanto, não é se as máquinas podem aumentar nossa confiança no conhecimento, mas que tipo de confiança estamos cultivando. Uma sociedade que terceiriza a confiança epistêmica para entidades que simulam compreensão sem senti-la corre o risco de produzir uma geração epistemicamente crédula, vulnerável à manipulação e incapaz de distinguir o conhecimento genuíno da mera plausibilidade estatística. Por outro lado, uma sociedade que utiliza a IA como ferramenta para fortalecer as capacidades humanas de mentalização e ensino pode ampliar o círculo da confiança epistêmica, alcançando aqueles que, por traumas ou circunstâncias, dela foram excluídos. O futuro da nossa relação com o conhecimento depende menos do que as máquinas podem fazer e mais do que escolhemos fazer com elas — e, sobretudo, do que continuamos a exigir de nós mesmos como seres que, ao contrário das IAs, podem genuinamente compreender, se importar e se responsabilizar pelo que ensinam.





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©2023 by Mário Bertini Psicólogo e Psicanalista

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