O Erro como Caminho: Funcionamento Reflexivo, Enactment e a Improvisação no Campo Analítico
- Mário Bertini
- há 14 horas
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Há uma tensão produtiva no coração da clínica psicanalítica contemporânea. Ela não se apresenta como contradição a ser resolvida, mas como polaridade viva que organiza o campo — uma tensão entre a capacidade de *refletir sobre* a experiência mental e a necessidade de *ser atravessado* por ela. É dessa tensão que este ensaio trata, a partir de dois conceitos que a habitam de lados aparentemente opostos: o funcionamento reflexivo, tal como desenvolvido por Peter Fonagy, e o enactment, tal como teorizado pela psicanálise relacional.
I. O que é o funcionamento reflexivo
O funcionamento reflexivo (FR) é a operacionalização empírica da mentalização — a capacidade psicológica de compreender o comportamento, próprio e alheio, em termos de estados mentais subjacentes: desejos, intenções, afetos, crenças, fantasias. Fonagy e colaboradores desenvolveram o conceito inicialmente como instrumento de medida, a partir da Adult Attachment Interview, para capturar o grau em que um sujeito pode refletir sobre os estados mentais que animam suas relações de apego. Não se trata apenas de descrever eventos, mas de teorizar sobre a vida interior — a própria e a do outro.
O FR opera em várias dimensões. Há uma mentalização automática, rápida, implícita — aquela com que lemos uma sala ao entrar nela, sem pensar. E há uma mentalização controlada, deliberada, reflexiva — aquela que exige esforço e que se torna disponível quando o sistema de apego não está sobrecarregado. É precisamente aqui o ponto crítico: o FR colapsa sob estresse de apego. No exato momento em que mais precisaríamos compreender os estados mentais do outro — quando sentimos ameaça, abandono, vergonha — é quando menos conseguimos fazê-lo. A mentalização é uma capacidade dependente da regulação afetiva, e a regulação afetiva é, ela mesma, um produto da história de apego.
Do ponto de vista do desenvolvimento, o FR emerge de uma experiência intersubjetiva específica: o cuidador que mentaliza os estados do bebê, que oferece um espelho *marcado e contingente* — que diz, com gestos e expressões, “você está com raiva, não é ruim”. Esse espelho permite ao bebê encontrar sua própria mente na mente do outro. Quando essa experiência é perturbada — especialmente em contextos de trauma ou apego desorganizado — o FR não se desenvolve de forma robusta, e o sujeito adulto carrega essa lacuna como vulnerabilidade fundamental.
Clinicamente, o FR tornou-se o alvo explícito do Tratamento Baseado em Mentalização (MBT), e sua presença ou ausência prediz mudança terapêutica em múltiplas modalidades. Fonagy expandiu o quadro nos últimos anos para incluir o conceito de *confiança epistêmica* — a capacidade de receber novos conhecimentos sociais como relevantes e confiáveis. O argumento é que o FR não é apenas intrapsíquico: é fundamentalmente sobre a restauração da aprendizagem social. E o que restaura essa capacidade na terapia não é primariamente a interpretação, mas a *experiência de ser mentalizado* — o que já aponta, de forma velada, para o território relacional.
II. O enactment e sua ontologia intersubjetiva
O enactment emerge de uma tradição epistemológica diferente. Formulado por Theodore Jacobs, refinado por McLaughlin, Bromberg, Aron e outros, o conceito parte de uma premissa que o distingue radicalmente dos modelos de déficit: o inconsciente se comunica na relação, e essa comunicação não é um ruído a ser eliminado, mas o *medium* pelo qual o trabalho clínico mais profundo ocorre.
Um enactment não é simplesmente um erro técnico, uma atuação do analista, ou uma quebra de enquadre. É um evento de engajamento mútuo inconsciente — uma irrupção de padrões relacionais dissociados no campo díadico, que envolve, constitutivamente, a subjetividade de ambos os participantes. O analista não é um observador mentalizado que detecta o fenômeno de fora; ele está dentro dele, moldado por ele, antes de qualquer reconhecimento.
Philip Bromberg é talvez quem mais radicalizou essa perspectiva. Para ele, a dissociação — não o recalque — é o mecanismo central da psicopatologia. O self não é uma estrutura unitária, mas uma multiplicidade de estados do self que coexistem em graus variados de integração. O enactment é o momento em que um estado dissociado irrompe no campo relacional — quando aquilo que não pôde ser pensado de dentro da experiência começa a ser *vivido* na relação. O imperativo clínico de Bromberg, “estar nos espaços”, descreve exatamente a capacidade de tolerar essa multiplicidade sem colapsar numa só versão do self — do analista ou do paciente.
Jessica Benjamin acrescenta outra dimensão com seu conceito de thirdness. Para Benjamin, o par analítico oscila entre estados de dominação complementar — onde um sujeito oblitera o outro — e momentos de reconhecimento mútuo, nos quais ambos habitam um terceiro espaço que não pertence a nenhum dos dois. O enactment é, com frequência, a forma como a complementaridade complementar se apresenta: analista e paciente presos numa dança que reproduz o padrão relacional mais doloroso do paciente, sem que nenhum deles ainda perceba. O que transforma esse momento não é a interpretação do analista — é o *reconhecimento*, o instante em que ambos percebem, juntos, o que estava acontecendo.
III. A tensão produtiva
Esses dois quadros falam do mesmo fenômeno clínico — o colapso da reflexividade na relação terapêutica — mas a partir de premissas diferentes sobre o que esse colapso significa e o que deve ser feito com ele.
O modelo de Fonagy é fundamentalmente um *modelo de competência*: o FR é uma capacidade que pode estar mais ou menos disponível, que colapsa sob estresse de apego, e que o terapeuta ajuda a restaurar. O analista é aquele que mantém a postura mentalizante mesmo quando o paciente não pode — que modela a reflexividade e, ao fazê-lo, cria as condições para que o paciente a recupere. Há uma assimetria residual aqui, ainda que não seja a assimetria da neutralidade clássica.
A tradição relacional, ao contrário, insiste na *implicação mútua*. O analista não está fora do enactment; ele é seu co-construtor. Sua contribuição não é acidental, mas constitutiva. E, crucialmente, o reconhecimento de sua própria participação — a disposição de ser afetado, movido, às vezes desorganizado — é o que torna o evento clinicamente transformador. Uma resposta puramente mentalizante ao enactment — o passo atrás reflexivo, a nomeação do dinâmico, a interpretação dos estados mentais do paciente — pode ser, ela mesma, uma forma de enactment: uma defesa contra o reconhecimento mútuo, uma reasserção da assimetria no momento em que o paciente mais precisa que o analista seja afetado.
O que está em jogo, em última instância, é o *estatuto da subjetividade do analista*. Para Fonagy, ela é um recurso instrumental a ser gerenciado. Para a tradição relacional, ela é a condição de possibilidade do encontro.
IV. A metáfora do jazz
Há uma imagem que captura essa tensão com uma precisão que a linguagem conceitual dificilmente alcança: o erro no jazz.
No jazz, um músico pode tocar uma nota errada. O que acontece a seguir define tudo. Se ele a nega — se recua, corrige, retorna à linha harmônica prevista — o erro permanece um erro. Mas se ele a acolhe, se responde a ela, e os outros músicos o seguem nessa direção, aquela nota se transforma em caminho. Ela deixa de ser falha e passa a ser invenção. Não por negação do tropeço, mas pela improvisação que o abraça.
Essa metáfora ilumina algo que os conceitos técnicos apenas circunscrevem. O enactment é esse erro. Ele ocorre. Ele não deveria ter ocorrido — ou deveria, talvez, inevitavelmente. O que importa não é sua ocorrência, mas o que se faz com ele a partir do momento em que é percebido. A pergunta clínica não é “como evito o próximo enactment?” mas “o que fazemos agora, juntos, a partir do que acabou de acontecer?”.
E aqui a metáfora ganha uma segunda camada. No jazz, o músico experiente desenvolve algo como um FR implícito para o erro — ele não pensa “errei, como corrijo?”, mas já está improvisando *a partir* do erro antes que qualquer reflexão consciente se forme. A competência não está apenas na mentalização deliberada — no passo atrás analítico — mas na capacidade de *improvisar no colapso*. Isso é uma competência diferente: menos cognitiva, mais somática, mais intersubjetiva. É o que Bromberg chama de “estar nos espaços” — e é o que Benjamin chama de reconhecimento. Não uma restauração da reflexividade a partir de um lugar de segurança, mas uma nova síntese que emerge *dentro* da desorganização.
Fonagy veria o músico voltando a mentalizar. A tradição relacional veria o músico descobrindo uma música que não existia antes do erro.
Ambos têm razão. A questão é qual ênfase organiza a clínica no momento decisivo — e se o analista é, naquele instante, mais terapeuta da competência reflexiva ou parceiro de improviso.
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Miles Davis teria algo a dizer sobre técnica analítica.
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