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O Refúgio Psíquico e a Clínica da Espera: Steiner, Bromberg e Roussillon em Diálogo


I. A armadilha da pergunta


Quando o clínico se pergunta “como tirar o paciente do refúgio?”, já cometeu o erro técnico central que o conceito de refúgio psíquico foi elaborado para iluminar. A pergunta revela uma suposição — de que o refúgio é obstáculo, de que o analista é agente da mudança, de que há algo a fazer para produzir o movimento que não está acontecendo. John Steiner passaria boa parte de sua obra mostrando que essa suposição é precisamente o que mantém o paciente onde está.


O refúgio psíquico, tal como Steiner o elabora em seu livro de 1993, não é uma resistência no sentido técnico clássico. Não é defesa episódica contra um insight específico, nem evitação de um afeto particular. É uma *organização* — estável, estruturada, funcionalmente coerente — que o sujeito construiu para sobreviver a ansiedades que, em determinado momento de seu desenvolvimento, teriam sido insuportáveis. O paciente não está num refúgio porque é resistente; está num refúgio porque, em algum nível fundamental, aprendeu que o exterior não era seguro.


Isso transforma a questão clínica de modo radical. Não se trata de vencer uma resistência, mas de compreender o que torna o refúgio ainda necessário.


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## II. A estrutura do refúgio


Steiner situa o refúgio num ponto de confluência entre a posição esquizoparanoide e a posição depressiva — não exatamente em nenhuma das duas. O paciente que habita um refúgio não está submerso na fragmentação persecutória da posição PS, mas tampouco consegue sustentar a integração e a responsabilidade afetiva da posição D. O refúgio é uma solução de compromisso: oferece coesão suficiente para funcionar, ao custo de suspender o contato com a realidade psíquica mais plena.


O paradoxo que dá ao conceito sua potência clínica é este: o refúgio *protege e aprisiona simultaneamente*. Protege das ansiedades que o paciente não pode tolerar; aprisiona porque o isola das experiências que poderiam modificá-las. E porque oferece conforto — uma forma reconhecível de ser, um modo de se relacionar que tem a textura familiar do self —, o paciente não está propriamente sofrendo dentro do refúgio. Está estagnado. A diferença é clinicamente decisiva: o sofrimento mobiliza; a estagnação não.


Isso explica uma desconcertante classe de pacientes — aqueles que comparecem regularmente, participam do processo analítico com aparente engajamento, produzem material rico, confirmam interpretações, e permanecem, mês após mês, fundamentalmente inalterados. Não estão sabotando o tratamento. Estão *habitando* o tratamento a partir do refúgio, o que é diferente.


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## III. O que não funciona — e por quê


A tentação técnica mais comum diante do refúgio é a interpretação direta: nomear o padrão, apontar a evitação, convidar o paciente a reconhecer o que está fazendo. Steiner é categórico aqui: essa abordagem quase invariavelmente fracassa, e fracassa de modo específico. O paciente confirma a interpretação — às vezes com entusiasmo, com aparente insight — e permanece onde está. A interpretação é incorporada ao refúgio como mais um elemento do processo analítico que o habita sem transformá-lo.


Por quê? Porque o refúgio não é uma crença falsa a ser corrigida por uma crença verdadeira. É uma *organização de experiência*, e experiências não se modificam por descrição. O insight intelectual — por mais preciso que seja — opera no registo da simbolização secundária; o refúgio está ancorado muito antes, num estrato onde o que conta é o que foi vivido, não o que foi compreendido.


Há ainda uma complicação técnica mais sutil. Quando o analista pressiona para que o paciente abandone o refúgio — mesmo com boas intenções, mesmo com interpretações corretas —, representa exatamente o exterior que o refúgio foi construído para evitar: um ambiente que exige, que mobiliza, que não tolera a imobilidade. A pressão interpretativa confirma a necessidade do refúgio.


A oferta de uma relação mais calorosa, mais acolhedora, tampouco resolve — e aqui o argumento de Steiner é particularmente perturbador para clínicos de orientação relacional. O paciente que habita um refúgio tem uma capacidade notável de incorporar a benevolência do analista sem se deixar transformar por ela. A relação boa é assimilada como prova de que o analista é “do lado de cá” do refúgio — um objeto seguro dentro do sistema, não uma abertura para além dele.


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## IV. A técnica negativa: o que o analista para de fazer


Se há uma proposta técnica coerente em Steiner, ela tem estrutura predominantemente negativa. O que muda o curso do tratamento não é o que o analista introduz, mas o que deixa de fazer.


A primeira renúncia é a urgência. O analista que não consegue tolerar o não-movimento — que sente como fracasso próprio a estagnação do paciente — está comunicando ao paciente, em nível pré-verbal, que o exterior é exigente. Que há uma expectativa a ser atendida. Que a imobilidade é problema. Isso não é neutro: é precisamente a mensagem que o paciente passou a vida recebendo do ambiente original que tornou o refúgio necessário.


A segunda renúncia é a posição central. Steiner distingue *interpretações centradas no objeto* — que descrevem o que o paciente faz em relação ao analista, ao mundo, aos outros — de *interpretações centradas no paciente* — que reconhecem como a situação se apresenta *a partir de dentro* da experiência do paciente. Para quem habita um refúgio, as primeiras tendem a ser vividas como acusação ou convocação; as segundas, como reconhecimento. A diferença técnica é sutil na formulação, mas decisiva no efeito: o analista não convida o paciente a sair, mas demonstra que pode aproximar-se sem ameaçar.


Há aqui uma lógica paradoxal que merece ser tornada explícita: o refúgio se torna menos necessário quando o analista para de representar o perigo que o justifica. O exterior do refúgio é assustador porque, historicamente, era assustador. O que modifica essa equação não é a interpretação do medo, mas a *experiência repetida* de um exterior que não confirma o que era esperado.


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## V. Bromberg e a dimensão dissociativa


Philip Bromberg oferece uma contribuição que aprofunda e, em certos aspectos, desloca o argumento de Steiner. Para Bromberg, o que Steiner chama de refúgio é fundamentalmente uma organização dissociativa — não repressiva. A distinção é mais que terminológica: implica uma teoria diferente do que precisa acontecer para que haja mudança.


A repressão supõe um conteúdo que foi excluído da consciência mas que permanece representado, disponível para ser recuperado pela interpretação. A dissociação supõe partes do self que nunca foram integradas — que existem em paralelo, sem comunicação, sem conflito explícito. O paciente dissociativo não está evitando algo que conhece; está organizado de modo que certos estados de self simplesmente não coexistem.


Isso explica o fenômeno que a clínica dos refúgios frequentemente apresenta: o paciente que, em diferentes momentos da análise, parece ser pessoas distintas — não no sentido patológico dramático, mas no sentido de que os estados emocionais não se acumulam, não se informam mutuamente, não produzem narrativa contínua. Cada sessão pode ser genuinamente boa sem que o processo avance, porque não há self unificado que carregue a experiência de uma sessão para a outra.


A contribuição técnica de Bromberg, desenvolvida especialmente em *Standing in the Spaces* e *The Shadow of the Tsunami*, é que o analista precisa ser capaz de *estar com* as partes dissociadas sem prematuramente integrá-las. A integração não é objetivo técnico — é consequência de um processo em que as partes dissociadas se tornam, gradualmente, capazes de coexistir no campo analítico sem que a coexistência seja catastrófica.


O enactment, nessa perspectiva, não é falha técnica nem resistência do analista. É o mecanismo pelo qual o dissociado chega ao campo. O paciente não pode *falar sobre* o que não foi representado; pode apenas *encenar* — e o analista, ao ser capturado pelo enactment, torna-se o meio pelo qual essa dimensão se torna, pela primeira vez, intersubjetivamente real. Elaborar o enactment — não se defender dele nem apenas interpretá-lo — é o trabalho.


O diálogo com Steiner aqui é fértil: o refúgio pode ser compreendido como o contexto crônico dentro do qual enactments ocorrem e são sistematicamente neutralizados. O paciente participa do enactment, permite a elaboração, retorna ao refúgio. O analista sente que algo se move e depois percebe que voltou ao mesmo lugar. É o padrão de movimento-sem-mudança que nenhuma das duas tradições, isoladamente, consegue mapear com a mesma precisão que ambas juntas.


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## VI. Roussillon e o irrepresentável


René Roussillon acrescenta uma terceira camada que completa o quadro. Sua teoria do traumatismo primário e da simbolização primária oferece uma ontogênese para o que Steiner descreve estruturalmente e Bromberg descreve processualmente.


Para Roussillon, o traumatismo que organiza as defesas mais primitivas não é o trauma clássico — um evento que aconteceu e foi mal processado. É uma *falha ambiental precoce* na capacidade de simbolização: o ambiente não foi capaz de receber, metabolizar e devolver de forma transformada o que o bebê/criança precisava processar. O que não encontrou objeto capaz de simbolização não se tornou representação — ficou como traço não ligado, como excitação sem forma, como algo que pressiona sem ter endereço psíquico.


O refúgio, nessa leitura, não é apenas uma organização defensiva contra ansiedades conhecidas — é também uma proteção contra o irrepresentável que permanece no psiquismo como um estrangeiro interno, algo que não tem forma mas tem efeito. E é precisamente porque não tem forma que não responde à interpretação: não há representação a ser interpretada.


O trabalho que Roussillon propõe com esse estrato — e que conversa diretamente com a técnica negativa de Steiner — opera antes da palavra. Não é que o analista deva calar-se, mas que o que transforma não é o conteúdo semântico da interpretação, e sim a *qualidade da presença* do analista, sua capacidade de ser usado como objeto vivo, de sobreviver à destrutividade sem retaliar nem colapsar, de oferecer uma experiência de simbolização onde antes havia vazio.


Há aqui uma convergência subterrânea entre as três tradições que vale tornar explícita: Steiner, Bromberg e Roussillon convergem na ideia de que o que transforma o paciente em refúgio não é o que o analista diz, mas o que o analista *é capaz de ser* — a qualidade de sua presença, sua tolerância ao não-saber, sua capacidade de permanecer sem se tornar persecutório.


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## VII. O refúgio não se abandona — torna-se obsoleto


A formulação que me parece mais precisa para o que esses três autores, em conjunto, permitem dizer é esta: o refúgio não se abandona — torna-se obsoleto.


Não há momento de insight em que o paciente decide sair. Não há interpretação que dissolve a organização. O que acontece — lentamente, não-linearmente, com frequentes retornos — é que o exterior do refúgio vai acumulando experiências que não confirmam o que o refúgio foi construído para evitar. O analista não explode; não exige; não abandona; sobrevive à destrutividade; permanece presente sem precisar que o paciente mude. O exterior revela-se diferente do que a história prometia.


Esse processo tem tempo próprio — geralmente mais longo do que qualquer expectativa razoável — e produz uma forma específica de frustração no analista. A frustração não é má notícia: é dado clínico. Indica que o analista ainda espera algo do paciente, que ainda tem uma agenda, que ainda representa — em algum nível de que talvez não esteja consciente — o ambiente que exige.


A clínica dos refúgios é, nesse sentido, uma escola de tolerância à impotência. Não a impotência resignada de quem desistiu, mas a impotência ativa de quem permanece presente sem instrumentalizar a presença. É difícil porque vai contra o impulso básico do clínico — o desejo de ajudar, de mover, de transformar. E é exatamente aí, na capacidade de renunciar a esse desejo sem renunciar ao contato, que o trabalho acontece.


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## VIII. Uma nota técnica final


Há uma implicação prática que vale registrar. A clínica dos refúgios exige que o analista monitore, com particular atenção, *sua própria tolerância ao não-movimento*. O impulso de aumentar a frequência das sessões, de mudar o enquadre, de introduzir nova técnica, de encaminhar para avaliação psiquiátrica — todos esses movimentos podem ser clinicamente indicados, mas podem também ser expressão da intolerância do analista à estagnação. A distinção não é sempre fácil, e é precisamente aí que a supervisão e a análise pessoal do analista continuam sendo indispensáveis.


Steiner diria: quando você sentir urgência de fazer algo diferente com um paciente em refúgio, pause. A urgência provavelmente é sua — e é informação sobre o campo, não necessariamente prescrição técnica.


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*As ideias aqui desenvolvidas dialogam com: Steiner, J. (1993). Psychic Retreats. Routledge; Steiner, J. (2011). Seeing and Being Seen. Routledge; Bromberg, P. (1998). Standing in the Spaces. Analytic Press; Bromberg, P. (2011). The Shadow of the Tsunami. Routledge; Roussillon, R. (1999). Agonie, clivage et symbolisation. PUF.*



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©2023 by Mário Bertini Psicólogo e Psicanalista

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