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Regulação emocional e a clínica relacional ou Sobre cair com serenidade

Há uma insistência — quase ritual — em perguntar o que regula o corpo quando o cérebro falha, como se a regulação fosse um mecanismo isolável, um fusível que, ao ser substituído, restabelece a luz. Mas quando trocamos a lâmpada do raciocínio por uma lente relacional, algo muda: a regulação deixa de ser uma propriedade de um órgão e se mostra como um modo de estar no mundo, um arranjo de encontros e ausências, uma economia de trocas entre pele, voz e história. Este ensaio se propõe a acompanhar esse movimento: não para prover técnicas, mas para mapear o comportamento do laço onde a regulação se cria, se cristaliza e, por fim, se transforma.


Regulação — digamos já — não é só contenção de excitação. É maneira de responder à presença do outro. Há estilos de regulação que se parecem com defesas; há estilos que se parecem com lições aprendidas; há estilos que repetem, incansáveis, a arquitetura dos cuidados recebidos. Alguns apelam para o discurso, erguendo muros de teoria; outros apostam na atuação, lançando o afeto contra o outro como se este fosse um saco de areia; outros ainda se retraem, como quem retira a luz de uma sala para evitar que a fragilidade seja vista. Em cada um desses modos há uma ética prática: o sujeito tenta preservar-se do risco de aniquilação, tenta conservar um mínimo de continuidade psíquica. Não é adaptação neutra — é escolha forjada em memória e política.


Imagino três figuras — e nelas cabem muitas variações: a fala que regula, o corpo que regula, o outro que regula. A fala que regula é uma escrita em voz alta; expõe e esconde ao mesmo tempo. A pessoa que regula por discurso transforma o afeto em enunciado, e no enunciado encontra distância, proteção, prestígio. O campo relacional vira plateia e também lacuna. O terapeuta que escuta acaba por ser, para esse paciente, menos um companheiro de sensação do que um receptor de teorias; o laço se afina em reconhecimento condicional: se eu digo bem, sou aceito. A clínica aqui não consiste em arrancar arritmias cardíacas com um exercício, mas em tornar a presença do terapeuta um risco tolerável: nomear a frieza do campo, oferecer a voz como corpo, não como tribunal.


O corpo que regula é o corpo que age antes de pensar — uma voz primitiva que pressiona o ambiente na tentativa de receber contenção imediata. Quem regula por descarga exige do outro uma resposta que chegue antes da narrativa. Em crescimentos onde a contenção foi ausente, a atuação é linguagem; a agressividade é apelo. O terapeuta, então, tem duas tarefas íntimas e contraditórias: não se deixar dominar e, ao mesmo tempo, não abandonar. Sustentar sem capitular, acolher sem sobreproteger. A co-regulação neste registro é uma ética da resistência serena: suportar a onda para que ela, cansada, volte a virar símbolo.


O outro que regula — esta é talvez a figura mais delicada. Há sujeitos cuja regulação só acontece na presença física de alguém que funcione como âncora. Não é simples dependência: é história de internalização interrompida, é corda que ainda precisa de nós no lugar certo para não se arrebentar. A clínica relacional toma aqui a forma de scaffolding lento: presença que se oferece para ser lembrada, limites que não humilham, despedidas que ensinam a saudar. Não se trata de retirar suporte abruptamente — isso replicaria a falha primária — mas de criar uma narrativa intercalada de ausência e representação, de modo que o outro se torne cada vez menos objeto e mais função psíquica.


É preciso dizer também o que a perspectiva crítica nos obriga a ver: nem todo ajuste é desejável. Muitas formas de regulação obedecem a um mundo que exige produtividade, silêncio afetivo e autonomia performativa; elas são técnicas de sobrevivência num sistema que premia o autocontrole como virtude moral. Hipercontrole, nesse sentido, pode ser conformismo: regula o sujeito para o mercado. Retraimento pode ser resistência ou resignação. A clínica relacional deve, portanto, manter uma escuta ética que interrogue para que fim se regula: para pertencer? para competir? para não ser visto em sua fraqueza? A resposta clínica a essa pergunta não é uma prescrição técnica, mas uma política de presença.


O procedimento terapêutico deixa de ser um manual de comandos e se transforma numa posição: posicionamo-nos no campo, com corpo e fala, e pensamos com o paciente as possibilidades de relacionamento. Como reorganizar um estilo regulatório senão pela experiência de outra forma de vínculo? A teoria serve para nomear, mas é a experiência que altera. O que propomos na sessão — e fora dela — são situações relacionais que permitam ao sujeito testar alternativas: tolerar a frustração sem a catástrofe; expor o grito e não ser tragado por ele; falar e ser atendido não só pelo saber, mas pela presença. Pequenas reparaçõessão grandes transformações: um terapeuta que não se desorganiza quando chamado de indesejável; uma palavra que não corrige, mas acolhe; um silêncio que não pune, mas convida.


Por fim, a mudança de um estilo regulatório é lenta porque é história. Onde houve abandono, a reparação exige reiterada presença; onde houve exigência de perfeição, a queda do pedestal precisa ser permitida; onde nunca houve nome para o afeto, a palavra deve ser ofertada junto à mão que segura. Não há técnica milagrosa. Há campos restaurados — e nesses campos, a regulação reaprende não apenas a controlar, mas a partilhar. A clínica relacional crítica não quer indivíduos que funcionem melhor; quer vínculos que permitam que os indivíduos sejam mais inteiros, mesmo quando fragmentados.


Se eu puder arriscar uma última imagem: imagine uma casa antiga, onde cada cômodo guarda um modo de se equacionar a tempestade. Em alguns quartos acendemos a luz das palavras; em outros penduramos cordas para que o corpo encontre apoio; em outros ainda esperamos, no corredor, até que a presença do outro volte a ser segura. O tratamento não é consertar uma lâmpada; é reconfigurar a casa para que, quando a noite chegar, haja mais de uma maneira de atravessá-la — e haja alguém no corredor disposto a esperar conosco



Criado com auxílio de IA

 
 
 

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©2023 by Mário Bertini Psicólogo e Psicanalista

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