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A travessia e o derretimento: quando o fantasma se dobra em carne


Há cenas que não passam. Não porque se repetem no tempo, mas porque são portas trancadas dentro da memória. Ali onde o vivido excedeu o simbólico, onde o corpo foi deixado sozinho diante de um afeto que não pôde ser acolhido por nenhuma palavra, forma-se um núcleo de presença sem representação. E o sujeito — esse animal de linguagem — resta então preso a uma imagem. A imagem de si, da cena, do Outro. O que Lacan chamou de fantasma pode ser lido, nesse ponto, como um congelamento: uma imagem endurecida onde o desejo se encena sem nunca se realizar. Uma coreografia repetida até o esgotamento.


Mas há uma diferença importante entre repetir uma cena e viver de novo a experiência que a originou. O fantasma, na lógica lacaniana, é o bastidor estruturante: o sujeito se constitui ali, entre a pulsão e o olhar do Outro, no intervalo entre o que oferece e o que se supõe que o Outro deseje dele. “A travessia do fantasma” — essa fórmula tão citada — não é uma cura, mas um ponto de virada. É quando o sujeito deixa de ser sujeito do fantasma para tornar-se sujeito do desejo, mesmo sem garantias. É quando abandona a posição de objeto imaginado pelo Outro, mesmo que isso custe a perda da consistência que o fantasma oferecia. A travessia, portanto, é uma espécie de queda. De perda. De desinvestimento.


Mas o que há do outro lado dessa travessia? O que há depois do abandono da cena fantasmática?


Roussillon talvez diria: não há outro lado. Não há ruptura súbita. O que há é derretimento. O que há é transformação lenta. A travessia, para ele, não é um salto, mas um trabalho. E esse trabalho se dá no corpo, no vínculo, na capacidade de regressar à experiência primária — aquela que, por não ter sido representada, virou cena defensiva. O que para Lacan é cena estruturante do desejo, para Roussillon é defesa contra o traumático. A fantasia é a forma mais precoce de elaboração psíquica possível quando o corpo é invadido por um excesso: dor, excitação, abandono. A criança representa para sobreviver. E a repetição compulsiva da fantasia — aquela mulher que sempre me deixa, aquele pai que nunca me vê, aquele eu que precisa ser impecável — é, na verdade, uma tentativa de manter algo do mundo ainda em forma representável.


Mas o que se passa, então, no processo analítico quando esse fantasma começa a derreter?


Não há, como em Lacan, um ato de atravessamento. O que há é um processo transicional — no sentido pleno que Winnicott deu a esse termo. A capacidade de brincar com a imagem, de descolá-la de sua fixidez. É quando o paciente começa a contar de novo a mesma cena — mas agora com palavras que escorrem, com sensações antes sem nome, com pausas onde havia certezas. É quando o analista deixa de ser o Outro a quem se pede amor ou punição, e passa a ser a presença reencontrável onde o que antes era vivência muda de textura: do inominável ao narrável.


Roussillon escreve que a fantasia é o lugar onde o sujeito tenta dar forma ao que antes era puro trauma. E que só há possibilidade de simbolização quando essa cena é vivida de novo, mas sob outras condições. O analista, aqui, não é mais a metáfora do corte — como em Lacan —, mas o continente potencial, como em Winnicott. Aquele que pode sustentar a presença do traumático sem se desfazer, sem responder com contra-violência, sem exigir da criança psíquica o que ela ainda não pode oferecer.


Green, nesse ponto, se aproxima. Seu conceito de “funcionamento negativo” — essa zona cinzenta onde a psique não simboliza, mas também não enlouquece — ressoa com a ideia roussilloniana de que há estados intermediários entre o vivido bruto e a representação. A análise opera ali: no entre. No ainda-não. No quase. O trabalho não é atravessar, mas sustentar o intervalo.


E Bollas, por sua vez, traz um brilho inesperado a esse quadro. Sua noção de experiência transformacional não se opõe à fantasia, mas a inclui como parte de uma matriz estética da mente. O sujeito, diz ele, não busca apenas sentido: busca forma, ritmo, textura. Ele deseja ser tocado pelo mundo — e transformado. A fantasia, nesse contexto, é uma defesa, sim — mas também é uma busca estética: uma tentativa de compor um mundo interno suportável.


Talvez seja esse o ponto de encontro entre todos esses autores: a ideia de que o sujeito não deseja apenas escapar do trauma ou da castração — ele deseja reencontrar-se com sua capacidade criativa. A travessia, então, não é a destruição do fantasma, mas sua transfiguração. É quando a imagem fixa se torna figura móvel. Quando a dor muda de cor. Quando o mesmo sonho começa a ser contado com outra entonação.


A fantasia, uma vez atravessada — ou melhor, uma vez acolhida em sua função de proteção e luto — pode se tornar fonte de invenção. Como o barro que antes servia de barreira contra o frio e, um dia, vira escultura.


No final, talvez não se trate de romper com o fantasma, mas de fazer amizade com ele. De olhá-lo de perto, de ouvir sua lógica, de agradecer-lhe por ter segurado o mundo quando o mundo não fazia sentido. E então deixá-lo ir — ou melhor, deixá-lo mudar de forma.


Assim, o sujeito que atravessa o fantasma em Lacan é aquele que cai fora da cena imaginária. Mas o sujeito que trans-forma o fantasma em Roussillon é aquele que reaprende a viver no corpo, com o corpo, através do corpo — e que, na intimidade do vínculo transferencial, reconstrói a linguagem onde antes havia apenas silêncio.


Se há algo depois do fantasma, não é a liberdade plena. É o gesto delicado de poder dizer: isso me aconteceu. E, ao dizer, criar outra cena. Mais viva. Mais ambígua. Mais nossa.


Criado com auxílio de IA


 
 
 

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©2023 by Mário Bertini Psicólogo e Psicanalista

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