top of page

O Tempo como Vestígio e Resistência



Há um espaço entre o que pensamos e o que vivemos, um intervalo quase imperceptível que, quando notado, parece se expandir. Não é vazio, tampouco preenchido; é um silêncio denso que resiste a definições. Esse espaço é onde o tempo se esconde, ou talvez onde ele se revela – não o tempo cronológico que os relógios ditam, mas aquele que pulsa nos desvios, nas hesitações, nos gestos que se prolongam ou se interrompem. Um tempo que não se mede, mas que se sente. E, ao senti-lo, surge uma urgência: como capturá-lo sem destruí-lo?


Sempre tive a impressão de que o tempo nos observa. Ele está nos olhos que evitam encontrar os nossos, no suspiro antes de uma palavra que não será dita, na pausa entre uma lembrança e sua narrativa. Ao escrever, ao pensar, há sempre a tentativa de dar forma a esse movimento fugidio, como quem tenta reter água entre os dedos. Não se trata de controlar o tempo, mas de habitá-lo, de reconhecê-lo não como um fluxo ininterrupto, mas como uma sequência de vestígios – rastros que indicam onde estivemos, quem fomos, o que quase aconteceu.


Esse vestígio é resistência. Resistência ao apagamento, ao esquecimento, à pressa que nos empurra sempre para o próximo instante, como se o atual fosse insuficiente. Resistir ao tempo é também escutá-lo, deixá-lo ecoar em suas diferentes frequências: o tempo da infância que nunca se ajusta ao presente, o tempo da espera que dilata e consome, o tempo do corpo que envelhece sem aviso. Há algo de violento no ritmo acelerado que nos força a esquecer essas temporalidades internas, a moldá-las ao compasso externo, à cronologia que organiza mas também oprime.


No fundo, talvez, o que busco ao escrever – e ao viver – seja encontrar uma linguagem que respeite o tempo, que não o force a ser linear ou objetivo. Uma linguagem que seja também intervalo, hesitação, ritmo. Talvez seja isso que me fascine nos gestos reflexivos, nas metáforas que não explicam mas desvelam: elas criam uma pausa, abrem uma brecha onde o tempo pode respirar. Não é apenas o que se diz, mas como se diz, o que se omite, o que se repete, o que insiste.


Escrever, então, torna-se um ato de resistência contra o efêmero. Não para negar a passagem do tempo, mas para dar-lhe forma, para torná-lo visível. Como quem molda o barro que seca, sabendo que ele nunca será eterno, mas também nunca será o mesmo. E, nesse gesto, reconhecemos algo de profundamente humano: a tentativa de reconciliar o vivido com o pensado, de transformar o fugaz em duradouro, de escutar o silêncio entre as palavras. Um gesto que é, ao mesmo tempo, criação e memória.


Criado com auxílio de IA

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Uma morada onde a vida floresça

Há momentos em que uma palavra antiga parece conter dentro de si uma casa inteira. Não apenas um significado, mas um espaço habitável. Uma arquitetura. Uma maneira de existir. A palavra ética é uma de

 
 
 
Quem (não) sou Eu

Abro com uma pequena imagem: um bebê que solta, por instantes, o próprio choro e percebe — pela primeira vez — que existe alguém do outro lado que o recolhe, que nomeia o choro, que devolve calor. Não

 
 
 

Comentários


(34) 99102-4491

©2023 by Mário Bertini Psicólogo e Psicanalista

bottom of page