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A Agressividade como Condição: Por uma Ética do Cuidado sem Ilusão

Há uma certa moral do otimismo que estrutura, quase sub-repticiamente, grande parte do discurso contemporâneo sobre cuidado. Nela, cuidar pressupõe boa vontade, conexão natural, harmonia como estado de fundo. A agressividade aparece como acidente, desvio, patologia — algo a ser corrigido para que o cuidado verdadeiro possa enfim ocorrer. Essa moral não é apenas ingênua. Ela é perigosa, porque produz cuidadores que entram em colapso quando encontram o que sempre esteve lá.


A hipótese que quero desenvolver é a oposta: a agressividade em primeiro plano — como dado constitutivo da experiência humana, não como exceção — pode ser a condição de possibilidade de uma ética do cuidado mais honesta, mais sustentável, e paradoxalmente mais generosa.


O Mal-Estar como ponto de partida


Freud, em *O Mal-Estar na Civilização*, não lamenta a agressividade humana como um desvio evolutivo ou uma falha moral. Ele a reconhece como parte integrante da estrutura pulsional. Eros e a pulsão de morte não são forças que se alternam — são forças que se entrelaçam, que se constroem mutuamente. A civilização não suprime a agressividade; ela a organiza, a redireciona, cobra por isso um preço em sofrimento.


Esse ponto de partida tem uma consequência clínica e ética frequentemente subestimada: se a agressividade é estrutural, então o cuidado que não a leva em conta está operando sobre uma ilusão. O cuidador que acredita oferecer um espaço de pura benevolência não está isento da agressividade — está apenas inconsciente dela. E a agressividade inconsciente do cuidador é, clinicamente, das mais difíceis de trabalhar: ela se manifesta como silêncio, como neutralidade calculada, como o sorriso que não corresponde ao que se sente.


Winnicott, ao formular o conceito de ódio na contratransferência, foi nessa direção. O analista que não reconhece seu ódio pelo paciente não está amando mais — está mentindo melhor. O cuidado autêntico, para Winnicott, inclui a capacidade de sobreviver ao ataque sem retaliar e sem se desfazer. Mas sobreviver ao ataque pressupõe reconhecer que ele acontece, que ele dói, que algo em nós responde a ele. Pressupõe, em suma, que a agressividade esteja no primeiro plano da consciência do cuidador, não escondida sob uma camada de idealização profissional.


O Mal-Entendido como base da comunicação


Há uma segunda premissa na visão de mundo que me interessa examinar: a de que o mal-entendido é a condição de base da comunicação, não sua exceção.


A tradição filosófica dominante sobre linguagem tendeu a inverter isso. De Aristóteles a Habermas, o mal-entendido aparece como falha, ruído, obstáculo a ser superado pela razão comunicativa. O entendimento seria o telos natural da fala humana — e se não se chega a ele, algo deu errado.


Mas há uma linhagem alternativa, mais austera. Wittgenstein, nos *Philosophical Investigations*, dissolve a ideia de uma linguagem privada e, com ela, a ilusão de que o sentido é transportado intacto de uma mente a outra. O sentido emerge no uso, no jogo de linguagem, no contexto — e contextos nunca são idênticos entre dois falantes. Lacan radicaliza isso ao propor que o sujeito é estruturalmente dividido pela linguagem, que a comunicação é sempre comunicação de um sujeito que não se possui inteiramente a um outro que não o compreende completamente. O mal-entendido não é o fracasso da comunicação — é sua textura constitutiva.


O que isso muda eticamente? Muda tudo. Se parto da premissa de que o entendimento é o estado natural e o mal-entendido é o acidente, então cada ruptura na comunicação gera uma demanda urgente de reparação, uma ansiedade de completude. O cuidado torna-se uma corrida permanente contra a incompreensão. Mas se parto da premissa inversa — se o mal-entendido é a base — então cada momento de encontro real, cada instante em que algo genuinamente passa de uma subjetividade a outra, torna-se extraordinário. Não dado, não garantido, não barato.


Essa inversão não gera indiferença ao outro. Gera precisamente o contrário: uma atenção mais cuidadosa, porque o encontro é improvável. Cuido com mais rigor daquilo que sei ser frágil do que daquilo que suponho sólido.


Ser reconhecido como exceção, não como direito


A terceira premissa é correlata: o reconhecimento é menos frequente do que o não-reconhecimento. Aqui o diálogo com Hegel, via Honneth, é inevitável — mas também o seu limite.


Honneth, em *Luta por Reconhecimento*, elabora uma teoria social em que o desejo de reconhecimento é o motor das lutas históricas por dignidade. Há algo profundamente verdadeiro nisso. Mas há também, na obra de Honneth, uma teleologia implícita: como se a história fosse uma marcha, ainda que acidentada, em direção a formas cada vez mais inclusivas de reconhecimento mútuo. Como se o reconhecimento pleno fosse o horizonte a ser atingido.


A clínica psicanalítica sugere uma visão mais sóbria. O não-reconhecimento não é apenas uma injustiça social a ser corrigida — é uma condição estrutural da vida psíquica. Somos opacos a nós mesmos. Somos apreendidos pelo outro sempre de forma parcial, sempre através da grade de suas próprias necessidades, defesas, e limitações. Ser verdadeiramente visto — ser reconhecido não no que projetamos de nós, mas no que somos — é um evento raro, quase improvável.


Isso não é cinismo. É a condição que torna o reconhecimento valioso. Se fosse abundante, não pesaria tanto. Se fosse garantido, não mobilizaria tanto afeto. A raridade do reconhecimento genuíno é precisamente o que o converte em experiência transformadora quando ocorre — o que a tradição winnicottiana chamaria de encontro, e que Ferenczi descreveu, em seu registro mais íntimo, como o momento em que o analista finalmente acredita no paciente.


Uma ética do cuidado fundada nessa premissa não promete ao outro o reconhecimento pleno. Ela o oferece como intenção, como esforço, como postura — sabendo que a incompletude é irredutível. Isso é mais honesto do que a promessa terapêutica de ser “completamente visto e aceito”, que frequentemente é, ela mesma, uma forma de sedução que o cuidado não pode honrar.


O que a lucidez torna possível


Reúno agora as três premissas: a agressividade em primeiro plano, o mal-entendido como base, o não-reconhecimento como condição majoritária. O que essa visão de mundo permite, eticamente?


Primeiro, ela libera o cuidador da obrigação de sentir o que não sente. A ética sentimental do cuidado — que exige amor, empatia espontânea, calor como estado permanente — produz uma dupla mentira: o cuidador nega o que sente, e o cuidado torna-se performance. A ética lúcida que proponho não exige amor; exige compromisso. Não exige harmonia; exige presença. Não exige que o outro seja amável; exige que seja tratado com dignidade mesmo quando não é.


Essa distinção é clinicamente fundamental. O cuidado que depende de o outro ser simpático é um cuidado contingente, frágil, que colapsa precisamente quando mais necessário — porque os pacientes mais difíceis são, frequentemente, os que mais precisam. A ética que parte da agressividade como dado não é surpreendida pela hostilidade, pela manipulação, pela ingratidão. Ela as esperava. Não porque seja cínica, mas porque é realista — e o realismo, aqui, é uma forma de respeito.


Segundo, essa visão produz uma atenção de qualidade diferente. Quando o encontro é improvável, cada sinal de contato real é notado. Quando o reconhecimento é raro, qualquer indício de que o outro foi genuinamente apreendido é recebido com seriedade. O cuidador lúcido não está esperando que as coisas fluam — está atento ao que acontece quando algo, contra as probabilidades, se encontra.


Terceiro — e este é talvez o ponto mais contracorrente — essa visão protege o outro da idealização. O cuidado que parte da crença na harmonia fundamental tende a idealizar o cuidado, o cuidador, e a relação. E a idealização é sempre, na psicanálise, prenúncio de desvalorização. O ciclo idealização-desvalorização é precisamente o que uma ética mais lúcida interrompe: ao não prometer o que não pode dar, ao reconhecer os próprios limites e a própria agressividade, o cuidador permanece como objeto real — não como ícone que inevitavelmente vai decepcionar.


A decepção como dado, não como fracasso


Há ainda uma última inflexão necessária. Essa visão de mundo não evita a decepção — ela a integra. A decepção não é o sinal de que a perspectiva falhou; é parte de seu conteúdo. Esperava-se que as coisas fossem difíceis, e eram. Esperava-se que o reconhecimento fosse raro, e era. A decepção, aqui, não é surpresa — é confirmação de uma ontologia.


Mas — e este é o ponto crucial — confirmação não é indiferença. Pode-se ser decepcionado repetidamente e continuar a cuidar. Pode-se reconhecer a agressividade como condição e ainda escolher a presença. Pode-se partir do mal-entendido como base e ainda tentar, sempre de novo, dizer algo verdadeiro.


Essa é a forma de vida que essa visão sustenta: não a de quem espera pouco para sofrer menos, mas a de quem vê claramente e age assim mesmo. Não heroísmo — lucidez. E a lucidez, aqui, não é o oposto do cuidado. É a sua condição mais rigorosa.


Reconhecer e ser reconhecido é uma conquista do trabalho psíquico!

 
 
 

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©2023 by Mário Bertini Psicólogo e Psicanalista

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