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O Campo Relacional dos Cinco Conflitos Nucleares: Sintoma, Vergonha e Reativação do Apego

há 13 minutos
7 min de leitura

Introdução: do conflito intrapsíquico ao campo intersubjetivo

A psicanálise clássica situava o conflito no interior de um aparelho: pulsão contra defesa, id contra superego, desejo contra recalque. A virada relacional — de Fairbairn e Winnicott a Mitchell, Benjamin, Bromberg e Ogden — não abandona a ideia de conflito, mas desloca seu palco: o conflito não se resolve dentro de uma mente isolada, mas se constitui entre mentes, no campo de reconhecimento mútuo e de suas falhas recorrentes. Os cinco conflitos que aqui examino — intolerância à raiva, idealização da parentalidade, dificuldades com a dependência, medo de separação/abandono e medo de intrusão — não são categorias descritivas de conteúdo. São organizações relacionais recorrentes: padrões através dos quais o sujeito aprendeu, num campo intersubjetivo precoce, a gerir a presença e a ausência do outro, e que se reativam sempre que um novo vínculo convoca as mesmas coordenadas de risco.

Essa reativação é o ponto central. Não lidamos com "temas" que o paciente escolhe abordar, mas com estruturas de expectativa incorporadas — o que Bowlby chamaria de modelos internos de funcionamento e Bromberg descreveria como estados de self organizados em torno de experiências relacionais específicas, mantidos separados uns dos outros exatamente para que a dor de sua coexistência não precise ser sentida. Cada um dos cinco conflitos é, nesse sentido, um self-state com sua própria gramática afetiva, sua própria versão do outro e sua própria versão de si.

1. A intolerância à raiva: destrutividade, uso do objeto e o "fazer e ser feito"

Winnicott ofereceu à psicanálise relacional um dos seus conceitos mais radicais: a distinção entre relacionar-se com o objeto (que permanece uma criação subjetiva, projeção do sujeito) e usar o objeto (que exige que ele sobreviva à destruição fantasiada, emergindo como realidade externa, não mais controlada onipotentemente). A agressividade, nessa leitura, não é primariamente patológica — é o próprio mecanismo pelo qual o outro se torna real. Quando a destrutividade não pode ser expressa e sobrevivida — quando o objeto real (cuidador) retalia, colapsa ou se ausenta diante da raiva da criança —, o sujeito aprende que sua agressividade é letal ou insuportável para o vínculo, e a dissocia.

Jessica Benjamin radicaliza essa ideia com sua estrutura do doer and done-to (aquele que faz e aquele a quem é feito): quando a raiva não pode ser processada dentro de um terceiro espaço de reconhecimento mútuo, o campo colapsa numa polaridade de complementaridade rígida — ou o sujeito é agressor, ou é vítima; nunca os dois são simultaneamente sujeitos com desejo e agência. A dificuldade em tolerar a própria raiva, portanto, frequentemente não é ausência de agressividade, mas o colapso da capacidade de sustentá-la dentro de uma relação que também contém amor, sem que isso destrua o vínculo ou o próprio self. Clinicamente, isso aparece como somatização, irritabilidade dissociada de contexto, ou uma bondade compulsiva que mascara — e paga o preço por — uma hostilidade nunca metabolizada.

2. Expectativas idealizadas da parentalidade: o falso self e os fantasmas no berçário

A idealização da parentalidade — a fantasia de que o vínculo com o filho reparará, completará ou redimirá a própria história — é compreensível à luz do conceito winnicottiano de falso self construído em resposta à falha ambiental precoce. Quando a suficiência do cuidado recebido foi condicional (o cuidador só estava disponível quando o bebê se conformava a uma necessidade narcísica dele), o sujeito adulto pode reproduzir essa mesma condicionalidade na parentalidade, agora do lugar inverso, esperando do filho — ou de si mesmo como pai/mãe — uma perfeição que nunca foi permitida a ele próprio.

Selma Fraiberg descreveu isso como "fantasmas no quarto do bebê": os pais reencenam, involuntariamente, dinâmicas não elaboradas de sua própria infância no vínculo com o filho, mesmo quando conscientemente desejam o oposto. A idealização funciona como defesa maníaca (no sentido kleiniano) contra o luto necessário de que a parentalidade real — com suas rupturas inevitáveis, seus fracassos ordinários (Winnicott falaria de "falha ótima") — jamais corresponderá à fantasia reparadora. Quando essa idealização se choca com a realidade (o bebê que chora sem cessar, a exaustão, a própria raiva do cuidador), o resultado não é apenas decepção, mas vergonha aguda: a sensação de ter falhado não apenas como cuidador, mas de ter revelado que o self "verdadeiro" — imperfeito, às vezes odiento, limitado — nunca deveria ter sido exposto.

3. Dependência: entre Fairbairn e a autonomia relacional

Fairbairn argumentou que a libido é, antes de tudo, buscadora de objeto, não buscadora de prazer — o que implica que a dependência do outro não é uma fraqueza a ser superada, mas a condição estrutural de todo self. A patologia não está em depender, mas em como a dependência foi tratada pelo ambiente precoce: se foi acolhida como legítima ou se foi envergonhada, instrumentalizada, ou usada como alavanca de controle.

A dificuldade em tolerar a dependência — seja evitando-a compulsivamente (falsa autossuficiência), seja submetendo-se a ela sem limites (fusão) — reflete o que a teoria do apego chamaria de estratégias organizadas (evitativa ou ambivalente) diante de um cuidador que não regulou de forma previsível a proximidade. Bromberg acrescentaria: esses dois polos — autossuficiência defensiva e fusão ansiosa — são frequentemente estados dissociados dentro do mesmo sujeito, não traços fixos. A pessoa pode viver ambos, alternando-se, sem reconhecer a continuidade entre eles, porque reconhecê-la exigiria sentir simultaneamente o desejo de depender e o terror de que depender seja usado contra ela — algo que o self dissociativo foi construído precisamente para evitar sentir de uma vez.

4. Medo de separação e abandono: apego como texto vivo, não como história

Este é talvez o conflito mais diretamente vinculado à teoria do apego, mas a leitura relacional acrescenta uma dimensão crucial: o medo de abandono não é apenas memória de uma perda, é uma expectativa procedural ativa no presente, constantemente testada e confirmada (ou desconfirmada) em cada novo vínculo, inclusive — e especialmente — no vínculo analítico. Bowlby descreveu os modelos internos de funcionamento como relativamente estáveis, mas Fonagy e a perspectiva da mentalização acrescentam que esses modelos operam sob condições de confiança epistêmica: só revisamos nossas expectativas relacionais quando o outro demonstra, de modo relevante e ostensivo, que nos reconhece como agentes intencionais confiáveis.

Isso explica por que o medo de abandono resiste tanto à reasseguração verbal: não é um erro cognitivo a ser corrigido, é uma configuração afetivo-corporal que só se revisa através de experiência relacional repetida, vivida, sobrevivida. Green, com o conceito de mãe morta, descreveu uma variante particularmente dolorosa: não o abandono físico, mas a retirada psíquica do objeto — presente fisicamente, ausente libidinalmente — que deixa a criança numa vigília perpétua, tentando reanimar um objeto que nunca a abandonou no sentido concreto, mas que também nunca esteve inteiramente lá. O medo de separação, nesses casos, coexiste paradoxalmente com um vínculo que nunca foi suficientemente investido para ser temido perder.

5. Medo de intrusão: o envelope psíquico e os limites do self

Se o medo de abandono trata do excesso de distância, o medo de intrusão trata do excesso de proximidade — a experiência de que o outro invade, define, ou dissolve os limites do self antes que este tenha se consolidado o suficiente para resistir. Winnicott chamava isso de impingement: a ruptura da continuidade do ser (going-on-being) por uma demanda ambiental prematura, que força uma reação em vez de permitir a espontaneidade. Anzieu, com o Moi-peau (eu-pele), formaliza essa ideia num modelo topológico: o self precisa de um envelope psíquico funcional — permeável o suficiente para trocas, resistente o suficiente para conter — e a intrusão precoce (seja física, emocional, seja pela imposição de estados mentais do cuidador que não correspondem aos do bebê) compromete essa função de contenção.

Clinicamente, o medo de intrusão se manifesta como hipervigilância diante da proximidade, dificuldade em ser conhecido mesmo quando há desejo de vínculo, e uma oscilação característica entre convite e recuo assim que a intimidade se aprofunda. É importante notar que esse conflito frequentemente coexiste — de forma dissociada — com o medo de abandono: o mesmo sujeito pode temer tanto ser deixado quanto ser invadido, sem conseguir localizar a distância "seguramente próxima" que ambos os medos, juntos, tornam quase impossível de habitar.

Vergonha como afeto que atravessa os cinco conflitos

A vergonha não é um sexto conflito paralelo aos outros cinco — é o afeto que emerge sempre que um desses conflitos se revela publicamente, isto é, sempre que a estrutura relacional interna se expõe diante de um outro real. Diferentemente da culpa (que pressupõe um ato e um julgamento sobre esse ato), a vergonha é relacional em sua própria estrutura fenomenológica: ela só existe sob o olhar do outro, real ou internalizado. Raiva não contida, dependência revelada, abandono temido tornado explícito, intrusão sofrida sem poder ser nomeada — todos, quando expostos, ativam vergonha, porque todos revelam a fissura entre o self que se gostaria de apresentar e o self que efetivamente reage sob pressão relacional.

Isso tem uma implicação técnica importante: tratar esses conflitos apenas como conteúdo a ser interpretado, sem atenção à vergonha que sua emergência na sessão provoca, reproduz — no campo analítico — exatamente a mesma falha de reconhecimento que os originou. O paciente não precisa apenas entender seu medo de abandono; precisa que o analista sobreviva, sem retaliar nem se retrair, ao momento em que esse medo se atualiza entre os dois.

Reativação do apego no encontro clínico: enactment como via régia

É aqui que a leitura relacional se distingue mais nitidamente da leitura clássica da transferência como distorção a ser corrigida por interpretação. Para Bromberg, Davies, Stern e Ogden, os cinco conflitos não são simplesmente relatados na sessão — são encenados (enacted) no próprio campo relacional analista-paciente, frequentemente antes que qualquer um dos dois tenha consciência disso. O paciente que teme intrusão pode experienciar uma interpretação precisa como invasiva; o paciente que teme abandono pode reagir a um cancelamento de sessão com uma intensidade desproporcional ao evento manifesto, porque o evento reativa a configuração inteira do modelo interno.

Ogden descreveria isso como a emergência de um "terceiro analítico" — uma criação intersubjetiva que não pertence inteiramente a nenhum dos dois participantes, mas que revela, em sua textura, exatamente as coordenadas relacionais que o paciente não consegue simbolizar sozinho. O trabalho técnico, então, não é apenas decodificar o conteúdo do enactment, mas sobreviver a ele como Winnicott descreveu a sobrevivência ao uso destrutivo do objeto: permanecer presente, reconhecer a própria participação (o analista não é neutro nesses momentos — ele também reage, também é convocado a um self-state correspondente), e processar em conjunto o que aconteceu, sem retaliação nem colapso.

Síntese: o sintoma como comunicação, não como resíduo

A leitura relacional desloca o sintoma de seu estatuto clássico de "retorno do recalcado" para o de comunicação de uma configuração relacional que não pôde, até então, ser dita de outra forma. Os cinco conflitos aqui discutidos não são patologias isoladas, mas variações de um único problema estrutural: como o self aprendeu a gerir a presença, a ausência, a agressividade e a proximidade do outro, num momento em que ele ainda não tinha recursos simbólicos para fazê-lo sozinho. O sintoma, a vergonha e a reativação transferencial não são obstáculos ao tratamento desse problema — são as únicas vias pelas quais ele pode, finalmente, tornar-se acessível a um segundo olhar, dessa vez sobrevivido em vez de apenas suportado.





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©2023 by Mário Bertini Psicólogo e Psicanalista

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