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Quando o superego ri

há 10 minutos
6 min de leitura


Tem uma coisa estranha no humor. A gente ri justamente nos momentos em que, olhando bem, não deveria haver nada de engraçado.


A situação é ruim. Fomos humilhados, fracassamos, esbarramos na nossa própria insuficiência. E mesmo assim alguma coisa muda de lugar. Os fatos continuam os mesmos, mas deixam de pesar do mesmo jeito. Por alguns segundos é como se alguém tivesse mexido na distância entre nós e aquilo que nos ameaça.


Freud notou isso em O humor, de 1927. Um texto curto, e provavelmente o mais interessante nele é que Freud não trata o humor como descarga, nem como defesa, nem como um jeito de fugir do desprazer. Ele descreve outra coisa: uma mudança na relação entre o superego e o ego. O superego, que na maior parte do tempo acusa, exige, compara, pune — esse mesmo superego consegue, às vezes, ocupar outro lugar. Em vez de dizer "você deveria ter sido melhor", ele diz algo mais perto de "olha só como você está levando isso a sério".


Parece pouco. Mas é uma virada e tanto.


Porque talvez o humor não faça o sofrimento desaparecer. Ele muda o lugar de onde o sofrimento é sentido. O sujeito cai no chão — a queda continua sendo queda, a vergonha continua ali, a derrota não se desfaz. Só que, de repente, ele consegue olhar pra si mesmo de fora e dizer alguma coisa que interrompe o peso total daquele momento.


É quase como se aparecesse uma segunda voz dentro da primeira.


Uma voz diz: você fracassou.


E outra responde: é, e daí?


O humor começa nesse espaço entre as duas.


Um superego que para de perseguir


O interessante da formulação de Freud é que o superego não some. Continua lá. O que muda é a posição dele em relação ao ego.


Isso importa. Porque o humor não parece depender simplesmente de um superego mais fraco ou mais brando — ele aparece quando esse superego consegue ocupar outra posição, diferente da perseguição. Deixa de ser o juiz olhando pro réu e passa a se parecer mais com um adulto olhando pra uma criança assustada com algo real, mas que talvez não tenha a dimensão catastrófica que a criança está dando pra aquilo.


O adulto não precisa negar que a criança caiu. Basta dizer: você caiu, levanta.


Tem uma diferença enorme entre isso e: você caiu porque é incompetente.


A primeira frase mantém a realidade e tira o tamanho de catástrofe. A segunda transforma um episódio em identidade.


E acho que essa é uma das funções mais profundas do humor — não deixar que um acontecimento vire, na hora, uma sentença sobre quem a gente é.


Do episódio pra identidade


O superego cruel tem uma manha perigosa: não fica só avaliando comportamento, ele transforma acontecimento em definição de self. "Você errou" vira rápido "você é um fracasso". "Você foi rejeitado" vira "você não é desejável". "Você não conseguiu" vira "você não é capaz".


O superego não interpreta só o que aconteceu — ele ontologiza.


E é aí que o humor entra e produz um certo descolamento. Ele devolve ao acontecimento sua contingência.


Eu fracassei. Isso não quer dizer que eu sou o fracasso.

Fui ridículo. Não quer dizer que eu sou o ridículo.

Fui rejeitado. Não quer dizer que eu sou alguém que merece ser rejeitado.


O humor abre uma pequena distância entre o self e a narrativa que o superego conta sobre esse self. E talvez seja justamente nessa distância que alguma liberdade fica possível.


Só que tem um problema: quem é que está rindo?


Aqui a perspectiva relacional muda bastante a leitura freudiana. Se a gente pensa o self como algo constituído nas relações, tem que perguntar: de onde vem essa voz capaz de rir da própria desgraça?


Ela não vem de fábrica.


A gente aprende, ao longo da vida, jeitos diferentes de ser olhado. Tem o olhar que humilha. O que exige. O que abandona. E tem também o olhar que fica perto mesmo quando a gente fracassa.


Uma criança derruba um copo. Pode ouvir "você não presta atenção em nada". Ou pode ouvir "caiu, vamos limpar". A segunda experiência não ensina só uma regra de comportamento — ensina algo bem mais fundo: dá pra errar sem perder o vínculo.


Essa é talvez uma das condições relacionais do humor. Pra rir de si mesmo, a pessoa precisa ter passado, em algum grau, pela experiência de sobreviver ao olhar do outro sendo imperfeita. O humor depende não só de um superego menos cruel, mas de uma história relacional em que falhar não equivale automaticamente a perder o amor.


O humor como terceiro


Na psicanálise relacional a gente costuma pensar que o que acontece entre duas pessoas não é só a soma do que cada uma carrega dentro de si — o terceiro elemento é a própria relação.


O humor pode funcionar como esse terceiro. Quando duas pessoas ficam presas numa configuração rígida — acusador e acusado, superior e inferior, terapeuta e paciente, pai e filho — o humor introduz uma terceira posição. De repente dá pra olhar pra cena. Não só estar dentro dela; também olhar pra ela de algum lugar.


Isso tem bastante a ver com o que chamamos de mentalização. O humor produz uma reflexividade curiosa: eu continuo sendo eu, mas consigo me ver como personagem de uma cena. Por isso algumas piadas funcionam quase como pequenas experiências de liberdade. Não negam a realidade, mudam o enquadramento dela.


Quando o paciente consegue rir


Tem algo clinicamente importante no momento em que um paciente consegue rir de algo que antes só conseguia contar em tom de tragédia. Nem sempre porque parou de doer. Às vezes é o contrário.


Ele ri porque já não está tão colado na posição que ocupava naquela experiência. Um paciente pode passar anos dizendo "eu sou uma pessoa ridícula" e, num certo momento, contar uma situação embaraçosa e rir: "Meu Deus, eu fui muito ridículo naquele dia."


A diferença parece só gramatical. Mas psicologicamente é enorme. No primeiro caso o predicado ocupa o lugar do sujeito. No segundo existe uma pessoa que passou por uma experiência.


Eu não sou o que aconteceu comigo.


O perigo do humor


Só que seria um erro transformar o humor numa virtude terapêutica universal. Porque também dá pra rir pra não sentir. Dá pra usar a ironia pra evitar a vergonha, pra fazer piada antes que o outro consiga nos humilhar, pra transformar tudo em comédia de modo que nada precise ser realmente vivido.


Tem diferença entre rir porque a gente aguenta a experiência e rir pra não precisar aguentá-la. O primeiro caso amplia o espaço psíquico. O segundo diminui.


O humor defensivo diz: não me importo.


O humor mais integrado diz: eu me importo, mas isso não precisa destruir quem eu sou.


Do superego ao ideal de ego


Tem ainda uma questão interessante quando a gente põe Freud em diálogo com a clínica contemporânea. O superego clássico persegue o ego através da culpa — "você fez algo errado". Mas boa parte do sofrimento narcísico de hoje se organiza de outro jeito: "você não é aquilo que deveria ser."


A diferença é entre transgressão e insuficiência. Não é só "eu fiz algo ruim", é "eu deveria ser mais interessante, mais desejável, mais produtivo, mais bonito, mais bem-sucedido". O tribunal muda de natureza. E a vergonha talvez seja uma das linguagens preferidas desse tribunal novo. A culpa pergunta o que eu fiz. A vergonha pergunta o que há de errado comigo.


Nesse contexto o humor ganha uma função interessante: consegue desmontar, por alguns instantes, a seriedade do ideal. Não elimina o desejo de ser melhor, mas impede que esse ideal vire tirania. Rir de si mesmo pode significar: eu posso querer virar outra pessoa sem precisar odiar quem eu sou agora.


Talvez seja uma das formas mais maduras de lidar com o ideal de ego.


Uma clínica que consegue rir


Tem algo relacional também no fato de que algumas das melhores experiências de humor em análise acontecem entre analista e paciente. Não é o analista contando uma piada pra aliviar a sessão. É a própria relação conseguindo, por um instante, rir da sua própria repetição.


O paciente percebe que está fazendo de novo aquilo que sempre faz. O analista percebe que entrou de novo na mesma dança. E por um instante os dois conseguem olhar pra cena — não de fora, como observadores neutros, mas de perto o suficiente pra reconhecer: olha só o que nós dois estamos fazendo.


Esse riso é bem diferente de uma interpretação. A interpretação diz: você está repetindo uma configuração relacional. O humor faz algo mais performativo: olha, estamos repetindo isso de novo. E os dois riem. Nesse momento a relação deixa de ser só o lugar onde o padrão se repete e passa a ser também o lugar onde o padrão pode ser visto. E o que pode ser visto junto começa a poder ser transformado junto.


Quando o superego ri


Talvez dê pra reler Freud a partir da psicanálise relacional dessa forma: o superego que ri não é simplesmente um superego mais gentil. É a internalização de uma experiência relacional diferente — uma experiência em que alguém olhou pra nossa falha sem transformar essa falha na nossa identidade. Em que a gente foi visto na própria insuficiência e continuou pertencendo. Fracassou sem ser expulso. Foi ridículo sem virar indigno.




Criado com auxílio de IA

 
 
 

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©2023 by Mário Bertini Psicólogo e Psicanalista

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