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A Dialética da Entrega: O Surrender Relacional, o Masoquismo Guardião da Vida e a Ética da Alteridade na Clínica Contemporânea

há 20 horas
5 min de leitura

A clínica psicanalítica contemporânea frequentemente nos convoca a transitar entre diferentes matrizes teóricas para dar conta dos impasses na simbolização e nos processos de subjetivação. De um lado, a psicanálise relacional, com seu foco na intersubjetividade; de outro, a metapsicologia francesa, com seu rigor na economia pulsional. Contudo, a espessura da experiência clínica exige que essa articulação transborde os limites estritos da metapsicologia e dialogue com a filosofia moral e a teoria social.

Ao colocarmos em diálogo o conceito de surrender (entrega) de Emmanuel Ghent e o "masoquismo guardião da vida" de Benno Rosenberg (ampliado por Michel Fain, Claude Smadja e René Roussillon), revela-se um solo fértil. Quando adensamos essa intersecção com a ética de Emmanuel Levinas, o dialogismo de Mikhail Bakhtin, a hermenêutica de Hans-Georg Gadamer, a ética colaborativa-expressiva de Margaret Urban Walker e a teoria do reconhecimento de Axel Honneth, o que emerge é uma vigorosa epistemologia do encontro clínico.

A Anatomia da Entrega e o Chamado Ético de Levinas

No pensamento de Emmanuel Ghent, o surrender é destituído de sua conotação de derrota. Ghent diferencia a verdadeira "entrega" da "submissão". A submissão é uma manobra defensiva, um apagamento do sujeito erigindo um falso-self diante de um objeto temido. A entrega, por sua vez, é um anseio em direção ao crescimento e à permeabilidade, a coragem de desmantelar defesas onipotentes para ser, de fato, impactado pelo outro.

Podemos ler esse anseio pelo surrender como a manifestação clínica da ética de Emmanuel Levinas. Para Levinas, a subjetividade não se funda no isolamento narcísico, mas na responsabilidade radical exigida pelo "Rosto" do Outro. O Outro quebra a totalidade do Eu. O movimento de entrega descrito por Ghent é, essencialmente, a capacidade de suportar a assimetria fundamental da existência proposta por Levinas: renunciar à onipotência totalizante e aceitar a hospitalidade radical à alteridade.

A Âncora Econômica e o Dialogismo Bakhtiniano

Contudo, esse desarmamento defensivo gera angústia. Como o psiquismo tolera a dor e a desestabilização imanentes a essa abertura radical? Aqui, a leitura francesa do masoquismo guardião da vida fornece a âncora econômica.

Como demonstra Rosenberg, o masoquismo primário não é patologia, mas a primeira vitória de Eros sobre a pulsão de morte. Ao voltar a destrutividade inata para o próprio ego e amalgamá-la com a libido, cria-se uma cota de tolerância à dor — um "pára-raios" pulsional. É essa infraestrutura de continência que impede a desorganização psíquica ou a descarga somática.

Se traduzirmos essa economia pulsional para a linguística e a teoria social, o masoquismo guardião da vida é o que permite ao psiquismo sustentar o dialogismo de Mikhail Bakhtin. Bakhtin postula que a consciência é constitutivamente polifônica; nós somos feitos das vozes dos outros. Para que o sujeito consiga hospedar essa multiplicidade discursiva em seu mundo interno sem vivenciá-la como uma intrusão aniquiladora (ou sem tentar calá-la através de defesas autistas), ele precisa tolerar o atrito inerente ao encontro de diferentes consciências. O masoquismo guardião da vida é a argamassa econômica que permite ao sujeito suportar a polifonia bakhtiniana sem se fragmentar.

O Risco Hermenêutico e a Fusão de Horizontes

A intersecção entre o surrender e a tolerância ao desprazer atinge seu clímax no campo da produção de sentido. Na hermenêutica filosófica de Hans-Georg Gadamer, a verdadeira compreensão só ocorre através da fusão de horizontes. Esse evento exige que o sujeito arrisque seus próprios preconceitos e certezas dogmáticas ao encontrar o horizonte do outro.

A fusão de horizontes não é um processo pacífico; exige o luto por perspectivas anteriores. O surrender de Ghent é o movimento intersubjetivo que viabiliza essa fusão gadameriana no setting analítico. E, novamente, é o masoquismo guardião da vida que banca o "custo econômico" desse risco epistemológico. Sem essa sustentação, a perspectiva do analista não se funde à do paciente, mas é sentida como um corpo estranho a ser ejetado violentamente.

O Fracasso: Submissão e a Ética Colaborativa-Expressiva

Quando o ambiente primordial falhou, o sujeito recorre à submissão relacional, que, na linguagem econômica, corresponde à desintricação pulsional e ao império do masoquismo mortífero (a compulsão à repetição voltada para o aniquilamento).

Sob a lente da ética colaborativa-expressiva de Margaret Urban Walker, a submissão revela seu custo moral. Walker propõe que a moralidade não repousa em princípios abstratos universais, mas em práticas corporificadas e relacionais de atribuição de responsabilidades, narrativas e confiança mútua. A submissão impede a construção dessa ética situada. Um paciente aprisionado no masoquismo mortífero não consegue participar da coreografia colaborativa de construção de sentido; ele atua um roteiro fixo e paralisante. A passagem da submissão para o verdadeiro surrender é o que devolve ao sujeito e ao analista a agência para co-construírem uma moralidade expressiva, onde a responsabilidade pelo vínculo é compartilhada de forma viva.

O Analista Sobrevivente e a Liberdade Social

A clínica se torna o palco para a restauração de todas essas dimensões. Como aponta Ghent, a entrega só ocorre se o analista puder "sobreviver" à destrutividade do paciente. Na metapsicologia de Roussillon, essa sobrevivência catalisa a (re)intricação pulsional.

O horizonte ético e político desse manejo clínico aponta diretamente para o conceito de liberdade social de Axel Honneth. Honneth, fundamentado na tradição dialética, argumenta que a liberdade humana não é puramente negativa (estar livre da interferência alheia), mas inerentemente relacional e institucional. A verdadeira "liberdade social" só é alcançada quando reconhecemos e somos reconhecidos pelo outro; onde a presença do outro não é o limite da minha liberdade, mas a sua própria condição de possibilidade.

O masoquismo guardião da vida ampara o surrender, permitindo que o sujeito saia da posição defensiva onde o Outro é uma ameaça totalizante (falta de liberdade). A entrega relacional bem-sucedida, portanto, é a materialização psíquica da liberdade social honnethiana: o paciente descobre que pode ser infinitamente permeável, suportar as diferenças dialógicas (Bakhtin) e responder ao chamado ético (Levinas), não com submissão mortífera, mas como um sujeito encarnado e livre em sua incontornável dependência humana.


Referências Bibliográficas

BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. Tradução de Paulo Bezerra. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.

FAIN, M. Prélude à la vie fantasmatique. Revue Française de Psychanalyse, Paris, v. 35, n. 2-3, p. 291-364, 1971.

GADAMER, H.-G. Verdade e método I: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Tradução de Flávio Paulo Meurer. Petrópolis: Vozes, 1997.

GHENT, E. Masochism, submission, surrender: Masochism as a perversion of surrender. Contemporary Psychoanalysis, New York, v. 26, n. 1, p. 108-136, 1990.

GREEN, A. O trabalho do negativo. Tradução de Maria Lúcia de Mello e Oliveira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

HONNETH, A. O direito da liberdade. Tradução de Saulo Krieger. São Paulo: Martins Fontes, 2015.

LEVINAS, E. Totalidade e infinito: ensaio sobre a exterioridade. Tradução de José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1980.

ROSENBERG, B. Masoquismo mortífero e masoquismo guardião da vida. Tradução de Marina Appenzeller. São Paulo: Escuta, 2003.

ROUSSILLON, R. Agonia, clivagem e simbolização. Tradução de Jaciara Lacerda e Jacyara Rochael. São Paulo: Escuta, 2004.

SMADJA, C. A vida operatória: estudos psicanalíticos. Tradução de Fátima Murad. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.

WALKER, M. U. Moral Understandings: A Feminist Study in Ethics. 2. ed. New York: Oxford University Press, 2007.



Criado com auxílio de IA



 
 
 

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