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Rendição, terceiridade e vacuidade: o superego entre os estados de self

há 10 minutos
4 min de leitura


A psicanálise relacional não abandona o superego, mas o retira do lugar de instância soberana e o recoloca no campo da experiência intersubjetiva. O superego deixa de ser apenas uma estrutura intrapsíquica que julga, cobra e pune; ele passa a ser compreendido também como uma presença viva na relação, como um estado de self que se absolutiza e que, ao fazê-lo, sequestra a multiplicidade da vida psíquica. Nesse deslocamento, conceitos como surrender, terceiridade e vacuidade do ego ganham uma função decisiva: eles não descrevem uma fuga do superego, mas uma transformação da relação que o sujeito mantém com ele.


Emmanuel Ghent foi quem estabeleceu a distinção mais fecunda entre submissão e rendição. A submissão é aquilo que o superego exige: adaptação, obediência, cumprimento de uma lei interna que se apresenta como anterior e superior ao desejo. Render-se, ao contrário, não é curvar-se. Ghent descreve o surrender como uma qualidade de liberação, um deixar-se levar que expande o self em vez de encolhê-lo. A rendição não é passividade; é abertura. E é justamente por isso que ela é intolerável para o superego. O superego se sustenta na antecipação da falha, na dívida impagável, na necessidade de controle. A rendição desarma esse mecanismo porque renuncia à tentativa de controlar o que não pode ser controlado. O masoquismo, nesse quadro, aparece como uma perversão da rendição: o masoquista se submete, mas não se rende; obedece ao superego enquanto fantasia que o transgride.


Jessica Benjamin articula essa questão à terceiridade. O Terceiro, em sua formulação, não é uma norma, uma lei ou um ideal. É aquilo a que ambos os parceiros da díade se rendem para que o espaço intersubjetivo se abra. A terceiridade é esse espaço mental compartilhado que permite sustentar a mente do outro como mente, sem colonizá-la nem ser colonizado por ela. Ora, o superego é precisamente o que impede essa rendição. Quando o superego ocupa o lugar do Terceiro, o que emerge não é terceiridade, mas complementaridade: alguém que acusa e alguém que se defende, alguém que faz e alguém que é feito, alguém que sabe e alguém que deve aprender. A rendição ao Terceiro exige que o ego não preencha o espaço com suas próprias certezas, culpas e ideais. É aqui que entra a vacuidade.


A vacuidade do ego, na leitura relacional, não é um vazio patológico nem uma dissolução mística do sujeito. É uma condição de possibilidade. Bion falava da necessidade de suspender memória, desejo e entendimento para que algo novo possa emergir. Winnicott descrevia o espaço potencial como um lugar de repouso sem exigência de integração. A vacuidade, nesse sentido, é o que permite que o ego deixe de ser o centro organizador de toda a experiência. O superego, porém, teme a vacuidade porque ela o desarma. Sem conteúdo — culpa, dívida, ideal, cobrança —, o superego perde sua função. Ele precisa de um ego cheio para poder acusá-lo. Um ego vazio não oferece superfície para a acusação. É por isso que a vacuidade é insuportável para o superego: ela não o combate, ela o torna desnecessário.


Philip Bromberg acrescenta a essa discussão uma reformulação decisiva do inconsciente. O inconsciente não é um reservatório de conteúdos recalcados, mas uma multiplicidade de estados de self mantidos separados por dissociação. Cada estado tem sua própria versão da realidade, seus afetos, sua relação com o superego. O que chamamos de “eu” é um tecido de estados que se alternam, e a saúde não está na unidade, mas na capacidade de transitar entre eles sem que um colonize os outros. Nesse contexto, o superego não é uma instância fixa: ele é um estado de self entre outros. Howell chega a descrevê-lo como análogo a um “alter abusivo”, um estado punitivo dissociado que se apresenta como a voz da realidade. O paciente não diz “estou me sentindo culpado”; ele diz “eu sou culpado”. O estado superegoico sequestra a experiência e reorganiza tudo em torno de acusação e defesa. Os outros estados — o vulnerável, o desejante, o criativo — ficam dissociados, amortecidos, impedidos de participar plenamente da vida psíquica.


A terceiridade, nesse quadro, é o que permite que o superego deixe de ser o todo e volte a ser uma parte. Não se trata de vencer o superego, nem de interpretá-lo para que desapareça. Trata-se de criar um espaço relacional no qual o paciente possa reconhecê-lo como um estado, e não como a verdade. Isso só acontece quando há um Terceiro — o analista, a díade, o espaço analítico — que sustenta a diferença entre os estados. A rendição ao Terceiro é o que relativiza o superego sem expulsá-lo. E a vacuidade do ego é o que torna essa rendição possível, porque sem vazio não há espaço para que outro personagem entre em cena.


Na clínica, isso tem consequências concretas. O analista que se deixa capturar pelo superego do paciente — ou pelo próprio — transforma o setting num tribunal. A conversa com familiares, por exemplo, pode ampliar possibilidades de compreensão ou simplesmente reproduzir, dentro do consultório, as mesmas relações de cobrança, acusação e defesa que já existem fora dele. O cuidado fundamental não é apenas técnico: é ético e relacional. O analista precisa se perguntar o que sua presença desperta, que lugar está ocupando, o que está co-produzindo inclusive sem intenção. A rendição do analista ao Terceiro não é uma técnica; é uma disposição para não preencher o espaço com suas próprias teorias, ansiedades e necessidades de cura. É uma forma de vacuidade.


Talvez a formulação mais precisa seja esta: a rendição ao Terceiro é o que permite que o superego deixe de ser o dono da cena e volte a ser um personagem entre outros. A vacuidade do ego é o que torna essa rendição possível, porque sem vazio não há espaço para que outro personagem entre. E os estados de self são a multiplicidade que o superego tenta unificar à força. A saúde não é a unidade, mas a transição. Não se trata de matar o superego, mas de devolver-lhe um lugar relativo. Não se trata de dissolver o ego, mas de impedir que ele se confunda com o todo. Não se trata de submeter-se, mas de render-se. E a rendição, ao contrário do que o superego promete, não é uma derrota: é uma abertura.



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