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A ferida narcísica e o eco do reconhecimento: entre a depressão, o sadismo e o falo"

Há uma região do ser onde a palavra não chega. Onde o silêncio não é apenas ausência de som, mas o traço queimado de uma voz que nunca foi. A depressão, na sua forma mais crua, talvez seja isso: um campo de devastação onde a possibilidade de significar se rompeu. Onde o eu, encolhido sobre si mesmo, lateja como um corpo frio que ainda pulsa. A clínica do negativo, como André Green nomeou, é o território daquilo que faltou antes mesmo de poder faltar, uma espécie de ausência originária, um buraco escavado no tempo da constituição do eu.


O narcisismo não é, como tantas vezes se banaliza, uma vaidade excessiva ou um amor-próprio exagerado. É, antes de tudo, o primeiro esforço desesperado de ser alguém para alguém. O bebê que busca o olhar da mãe, que espera o eco de um sorriso, que se constitui na dobra entre ser visto e se sentir visto. O narcisismo é a cena primitiva do reconhecimento: o espelho onde o eu nasce como possibilidade.


Quando esse reconhecimento falha, quando o outro primordial não devolve ao sujeito o contorno mínimo de sua existência psíquica, o que resta é o colapso. E é desse colapso que nasce tanto a depressão quanto o sadismo.


A depressão como retração da libido, como recuo absoluto do desejo, como um grito mudo contra a falha do ambiente. Como se o sujeito dissesse, com seu corpo esvaziado: “Vocês não me reconheceram, agora não haverá nada para ser reconhecido”. O eu se torna território de morte lenta, de apagamento progressivo. Como descreve Green, o depressivo não é apenas alguém triste: é alguém à beira da desobjetalização, alguém que vive o risco de não mais sentir, de não mais pensar, de não mais desejar.


O sadismo, ao contrário, é a resposta invertida. Se não fui reconhecido em minha vulnerabilidade, então serei reconhecido em minha potência de ferir. O outro vira o palco onde o sujeito tenta escrever, com o sofrimento alheio, a inscrição que lhe foi negada. Jessica Benjamin nos lembra que o sadismo é muitas vezes um protesto encarnado: uma forma distorcida de exigir o reconhecimento perdido. “Veja-me, nem que seja na sua dor.”


E entre esses polos – entre a retração depressiva e o ataque sádico – surge o falo. Não como órgão, mas como significante de poder, de completude imaginária, de negação da falta. O sujeito narcísico se cola ao falo como quem tenta costurar o rasgo. O falo é o símbolo daquilo que supostamente falta ao outro, mas também ao próprio eu. Quem tem o falo não precisa pedir reconhecimento. Não precisa implorar pelo olhar do outro. Não precisa sentir a vergonha da insuficiência.


Mas o truque é precário. A ilusão de completude é sempre uma operação defensiva contra a castração simbólica. Lacan já apontava isso quando mostrava que o sujeito se constitui na relação com a falta, e não na negação dela. O que o narcisista não suporta é exatamente isso: a experiência de não ser tudo. De depender. De desejar.


A necessidade de reconhecimento atravessa tudo. Ela está na origem da depressão, que é o luto por um reconhecimento nunca vivido. Está no sadismo, que é a vingança por um reconhecimento negado. Está no delírio fálico, que é a fantasia de um reconhecimento auto-suficiente, sem o outro.


A clínica nos mostra isso o tempo todo: o paciente que deprime porque não consegue mais sustentar a imagem de si; o paciente que ataca porque foi atacado na sua dignidade narcísica; o paciente que se infla de grandiosidade para não colapsar. Todos, de modos diferentes, estão presos à mesma cena: o momento originário em que olharam para o outro e perguntaram, com o corpo, com o afeto, com o grito: “Eu existo para você?”


A resposta – ou sua ausência – molda o destino psíquico de cada um.


No fim, talvez a cura seja sempre uma nova cena de reconhecimento. Uma escuta que não julga, um olhar que devolve contorno, uma palavra que restitui o direito de faltar. De desejar. De ser incompleto. Porque só a partir da incompletude é possível construir uma presença que seja verdadeiramente viva.




Criado com auxílio de IA.


 
 
 

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©2023 by Mário Bertini Psicólogo e Psicanalista

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