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A Herdeira do Chão e do Vento


Houve um verão diferente de todos os outros. O calor não apenas secava a terra, mas derretia as certezas.

A Formiga, em sua neurose laboriosa, carregava o peso do mundo nas costas. Para ela, a vida era uma dívida a ser paga com suor; o futuro era um catástrofe que precisava ser prevenida com acúmulo. Ela vivia no registro da necessidade. O chão era seu único horizonte, e o silêncio, sua única música.

Acima dela, no galho mais alto, a Cigarra vivia o puro dispêndio. Ela não acumulava nada, pois acreditava que a vida era um ato de presença radical. Para a Cigarra, o futuro era uma abstração inútil; só existia o "agora" vibrante e ensurdecedor. Ela vivia no registro do desejo sem objeto, puro canto lançado ao vento.

Mas, naquele verão, a exaustão da Formiga encontrou uma brecha. Ao parar por um segundo para limpar o suor, ela olhou para cima. O canto da Cigarra não lhe pareceu vadio, mas sim uma promessa de que o trabalho poderia ter outro fim que não apenas a sobrevivência nua. A Formiga sentiu falta da leveza.

A Cigarra, por sua vez, sentiu a vertigem do vazio. Olhando para baixo, viu na marcha obstinada da Formiga uma consistência que lhe faltava. Seu canto, tão belo, evaporava no ar. Ela invejou a capacidade da Formiga de deixar marcas no mundo. A Cigarra sentiu falta do contorno.

O encontro aconteceu no crepúsculo, na zona limítrofe entre a raiz e o galho. A Formiga buscou na Cigarra a melodia que não sabia produzir; a Cigarra buscou na Formiga a terra que não sabia pisar.

Dessa união improvável entre a obsessão pela segurança e a compulsão pela beleza, nasceu uma filha.

A filha não era bruta e rasteira como a mãe, nem apenas alada e diáfana como o pai. Ela tinha o corpo listrado de ouro, e possuía asas fortes, mas também patas ágeis para manipular a matéria.

Chamaram-na de Abelha.

A Abelha olhou para a Formiga e disse:

— Mãe, eu herdarei tua disciplina. Construirei casas, não no chão sujo, mas suspensas, com uma geometria perfeita e hexagonal. Usarei tua técnica, mas não para guardar cadáveres de insetos ou grãos secos.

A Abelha olhou para a Cigarra e disse:

— Pai, eu herdarei tua busca pela flor e pelo perfume. Voarei como tu, não para cantar e morrer, mas para colher a essência viva do mundo.

E assim a Abelha inventou a sua própria dialética: o Mel.

O mel era o milagre da família. Era a prova de que o trabalho da Formiga (a técnica, a construção, a repetição) podia servir para armazenar a alma da Cigarra (o perfume, o sabor, o néctar).

A Abelha não trabalhava por medo da morte, como a Formiga; nem vivia apenas para o gozo efêmero, como a Cigarra. Ela trabalhava para eternizar o verão. O mel era o canto da Cigarra transformado em matéria durável pela engenharia da Formiga.

Desde então, a Abelha ensina à floresta que a verdadeira vocação não é sofrer, nem se perder, mas sublimar: transformar a gravidade da vida em algo que se possa saborear, mesmo nos dias mais frios de inverno.


Nota de Rodapé (Leitura Psicanalítica)

Pensando na escuta clínica, esta fábula ilustra a passagem do princípio de prazer (Cigarra) e do princípio de realidade (Formiga) para a capacidade de sublimação (Abelha).

* A Formiga representa um supereu rígido, ou uma posição melancólica de puro dever, onde o objeto é apenas acumulado (analidade retentiva).

* A Cigarra representa a histeria ou o narcisismo primário, a descarga pura sem inscrição simbólica.

* A Abelha realiza o trabalho do luto e da simbolização. Ela constrói a colmeia (o aparelho psíquico, a estrutura) para abrigar o mel (o afeto, a pulsão de vida). Como diria André Green, ela encontra uma forma de "enquadrar" o vazio não com a morte, mas com a criação.



Criado com auxílio de IA


 
 
 

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©2023 by Mário Bertini Psicólogo e Psicanalista

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